Uma voz da cultura afrobeat

Filho do criador do afrobeat e ativista Fela Kuti mantém o ideal de criar música como vetor de mudanças; Seun Kuti faz show neste sábado (4), no Sesc Palladium

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

No palco, Seun Kuti vai destacar as canções do seu novo disco “A Long Way to the Beginning”
Divulgação
No palco, Seun Kuti vai destacar as canções do seu novo disco “A Long Way to the Beginning”

Seun Kuti herdou não apenas o legado musical deixado pelo seu pai, Fela Kuti (1938-1997). Para ele, é relevante a visão política daquele conhecido por defender a soberania do povo africano por meio da sua atuação como músico e ativista. Em passagem pelo Brasil, o nigeriano chega a Belo Horizonte, destacando o elo com essa importante personalidade e faz show neste sábado (4), no Grande Teatro do Sesc Palladium.

Seun vem acompnhado da banda Egypt 80, criada por Fela Kuti no fim da década de 1970. Na formação, ele lidera os vocais e é saxofonista, como também foi o seu pai, pioneiro da vertente batizada afrobeat. Conhecido pela mescla dos ritmos populares da Nigéria, com o suingue do funk, além das matrizes do jazz, o gênero se tornou popular a partir dos anos 1970 e ganhou o mundo quando Fela levou sua música a outros lugares, como os Estados Unidos.

Para Seun, sua conexão com essa herança é, portanto, familiar e direta. Apontado como o responsável por uma renovação do afrobeat, ele observa que esse movimento é um reflexo de quem ele é. “Eu não acredito que tenha acrescentado nada ao gênero, além de mim mesmo. Sabemos que todo trabalho de um artista, no fim das contas, revela um pouco da sua personalidade. Comigo isso não poderia ser diferente. O que eu trouxe ao afrobeat é um pouco do que sou”, diz Seun Kuti.

No show, essa postura deve se reverberar com as canções do seu novo álbum “A Long Way To the Beginning”. Seun ressalta que, como o mundo mudou, o afrobeat, agora mostrado por ele, também acompanha algumas tendências. “A música segue em processo de evolução como tantas outras coisas à nossa volta. Acho que o trabalho que fazemos hoje tem grandes similaridades com aquele dos anos 1970, mas em alguns pontos é diferente. Isso acontece como uma resposta às transformações que estão acontecendo a todo momento”, observa.

Sintonia. Dentre as características que soam mais contemporâneas no seu disco está a aproximação cada vez maior dele com o hip hop. Isso é bastante percebido na faixa “African Smoke”. O artista reforça que essa escolha não é gratuita, mas visa mostrar, de acordo com ele, as óbvias ligações dos rappers com o afrobeat.

“Eu acho importante fazer as pessoas perceberam que o hip hop tem profundas ligações com esse segmento. Em vez de o público comentar que há elementos de hip hop nessa ou naquela canção, seria mais interessante, ao meu ver, as pessoas perceberem que hip hop é afrobeat”, frisa.

Se no formato do que produz há algumas novas nuances, comparado ao repertório de Fela, Seun reforça, por outro lado, a sua fidelidade com o conteúdo das mensagens difundidas por seu pai. A luta pelo respeito aos direitos humanos e dos povos africanos, assim como a elevação da autoestima e da autonomia daquela população é algo constante nas letras de suas canções.

“O maior legado que o meu pai nos deixou certamente é essa compreensão de que a música tem que representar a emancipação do povo africano. Para que isso aconteça, é importante que as canções falem de nossa realidade a partir de uma experiência que vem de dentro, ou seja, que venha de nós mesmos”, diz.

Não à toa, ele vai recordar a canção “V.I.P. (Vagabonds in Power)”, de Fela Kuti. Nessa, o compositor alerta para o questionamento daqueles que ocupam as esferas do poder. “A música é definitivamente algo muito importante para os humanos, desde o início da civilização. O meu pai tentou usá-la para promover uma mudança positiva na sociedade e eu também busco isso”, acrescenta ele.

No entanto, ele percebe ser difícil, no presente, manter tal projeto. Seun nota que, como Fela, é raro encontrar alguém capaz de levar algo tão particular para o universo da música.

“A trajetória dele inspirou vários outros músicos ao redor do mundo. Nesse sentido, o afrobeat continua bastante vivo. Mas são poucas as pessoas que, como ele, conseguem expressar no que fez suas opiniões e motivações. Hoje em dia encontramos artistas que estão mais dispostos a tratar de algumas questões por meio de um ponto de vista mais genérico”, conclui Seun.

  • Agenda
  • o quê. Show de Seun Kuti
  • quando. Hoje, às 21h
  • onde. Grande Teatro do Sesc Palladium (av. Augusto de Lima, 420, centro)
  • quanto. Ingressos: Plateia I e II: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia); Plateia III: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia)
  •  

    Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave