Entre segredos e mentiras

iG Minas Gerais | Jessica Almeida |

Miguel Falabella e Arlete Salles trazem “O Que o Mordomo Viu”
Paula Kossatz/Divulgação
Miguel Falabella e Arlete Salles trazem “O Que o Mordomo Viu”

A estreia da peça “O que o Mordomo Viu”, no Queen’s Theatre de Londres, em 1969 – dois anos após o assassinato de Joe Orton, dramaturgo inglês que a escreveu – não foi bem recebida pelo público, nem pela crítica. Apesar de o auditório estar dividido, podia-se ouvir gritos como “Sujeira!”, “Lixo!” e “Encontrem outra peça!” de metade da plateia.

Entre outras críticas negativas, Harold Hobson, do “The Sunday Times”, a descreveu como “uma exploração totalmente inaceitável de perversão sexual”.

Somente Frank Marcus, do “The Sunday Telegraph”, enxergou o que o futuro reservava para o espetáculo. Usando a manchete “Nasce um clássico”, ele escreveu que “‘O que o Mordomo Viu’ viverá para ser aceita como uma clássica comédia da literatura inglesa”. E é esse espírito, descrito por John Lar, biógrafo de Orton, como “um nonsense alegremente irresponsável”, que a versão do texto de Miguel Falabella carrega.

Apresentado em Belo Horizonte em março desse ano, o espetáculo, que também é dirigido e protagonizado por ele, retorna à cidade no próximo final de semana (10 a 12), desta vez com a coprotagonista que Falabella tinha em mente quando idealizou o projeto: Arlete Salles.

Afastada do elenco para o tratamento de um tumor pouco depois da estreia, em janeiro, a atriz foi substituída por Marisa Orth e retomou seu posto recentemente. O sucesso da peça sem ela – só em Belo Horizonte, foram 4.000 espectadores – não a intimida e a pernambucana garante que o público terá experiência nova, mas tão rica quanto a anterior. “A Marisa é uma grande atriz e essa personagem nos dá inúmeras possibilidades de interpretá-la”, diz.

Apesar do que o título sugere, não há mordomo algum entre os personagens. Uma tradução com mais sentido seria “Olhando pela Fechadura”, mas a intenção aqui não é fazer sentido. Com acentuado tom de farsa – gênero da comédia marcado por situações de extremo exagero – o espetáculo conta a história do psiquiatra Arnaldo (Miguel), que tenta seduzir uma potencial secretária e se vê obrigado a esconder a moça atrás da cortina do consultório quando é surpreendido pela chegada da esposa, Mirta (Arlete).

Vaudeville

A partir daí, uma sucessão de acontecimentos absurdos se inicia e o caos é instaurado. No ritmo frenético do vaudeville, os atores são desafiados a não perderem a concentração e, consequentemente, suas marcações exatas. “Eu tenho dezoito entradas nessa peça, então tenho que ficar muito atenta a tudo que está acontecendo”, conta Arlete.

Nesta adaptação, o tradutor e diretor repete um hábito seu e traz referências do país original para o contexto brasileiro. Por exemplo, o pênis de uma estátua do político inglês Winston Churchill que some e mobiliza a polícia, se torna o pênis do “ex-presidente Lula”.

Amigos há mais de 25 anos, repetem a dobradinha profissional bem-sucedida – como na peça “A Partilha”, que Miguel Falabella considera seu maior sucesso e no seriado global “Toma Lá, Dá Cá” – mas contracenam no teatro pela primeira vez. Arlete considera a oportunidade como uma possibilidade de renovação. “Apesar do tempo e da nossa amizade, estamos sempre nos renovando. No teatro a gente descobre todos os dias algo novo que vem da resposta do público”, diz.

Derretido de afeto em entrevista à apresentadora Angélica, no programa “Estrelas”, Falabella se declarou à amiga: “Pouca gente diz as coisas que eu escrevo como a Arlete. Fico tranquilo, sei que ela vai dizer como imaginei, que entende a respiração, o ponto”, disse, em 2012. Hoje, ela ainda tenta entender a relação. “Ele (Falabella) expõe para todos que mesmo antes de me conhecer já me admirava. Acredito que nossa amizade e o trabalho juntos é quase que espiritual. Não dá para explicar”, conclui.

Volta à TV

Longe da TV desde uma participação especial em “Malhação”, no fim do ano passado, Arlete foi escalada para a próxima novela das 21h da Globo, “Babilônia”, de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, com previsão de estreia para fevereiro de 2015, depois do Carnaval. “Vou ser a mãe do personagem do Marcos Palmeira e a expectativa é a melhor possível”, afirma a atriz.

O que o Mordomo Viu Teatro Sesiminas (r. Padre Marinho, 60, Santa Efigênia, 3889 2003). De 10 a 12 de outubro. Sexta às 21h30; sábado às 19h e 21h30; e domingo às 19h. R$ 130 (inteira)

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