‘Beckett’ em camadas musicais

iG Minas Gerais | João Paulo Costa |

Rita Clemente dá vida a Winnie, uma mulher que transforma a tragédia do cotidiano em bem-humorado musical
CRISTINA FROMENT/DIVULGAÇÃO
Rita Clemente dá vida a Winnie, uma mulher que transforma a tragédia do cotidiano em bem-humorado musical

As imagens simbólicas e ao mesmo tempo insólitas do universo nonsense do texto “Dias Felizes”, do dramaturgo e escritor Samuel Beckett (1906-1989), ganharam uma nova roupagem pelas mãos da diretora e atriz mineira Rita Clemente, que adaptou o texto original do irlandês para uma linguagem que enaltece a estética musical.

Em uma espécie de “ópera contemporânea”, “musical contemporâneo” ou até “concerto” (como a própria Rita define), “Dias Felizes – Suíte em Nove Movimentos” – que teve sua estreia no Festival Temporales Internacionales no Chile, em 2006 –, foi sucesso de crítica e público por onde passou, tendo inclusive recebido o prêmio Questão de Crítica 2013 como melhor direção. Após uma longa temporada no Rio de Janeiro, a adaptação retorna à capital mineira para curta temporada no Teatro Oi Futuro Klauss Vianna, dos dias 10 a 12 (sexta a domingo).

A peça apresenta movimentos melódicos que transitam pela órbita de Winnie, uma mulher de aproximadamente 50 anos que passa por um momento de crise ao se ver submersa em um cotidiano opressor. Porém, da situação de imobilidade a personagem cria mecanismos para se comunicar com o mundo ao seu redor. “O cerne desse trabalho é a ideia de concerto, mas também se discute a relação entre a incomunicabilidade e o desejo da comunicação”, destaca Rita, que, além de interpretar a personagem Winnie, assina a direção, o figurino e o cenário do espetáculo.

De acordo com ela, o texto do dramaturgo irlandês sempre a instigou. “Acho que Beckett é um ícone de revolução no campo da dramaturgia. O interesse sobre sua obra é comum a todo artista de teatro e é uma coisa que faz muito sentido para mim, também. Durante muito tempo, namorei o original de ‘Dias Felizes’. O contexto feminino deste texto sempre chamou minha atenção e, por entender também ser possível nele o estreitamento das linguagens teatrais e musicais, é que mergulhei de cabeça”, diz a atriz e diretora nascida em Araxá.

Movimentos

Na montagem Rita dividiu o espetáculo em nove momentos musicais, que dão ritmo aos jogos cênicos fuga, rapsódia, rondó, fantasia, moteto, recitativo, área, vocalise e prelúdio. Segundo ela, a peça é um diálogo entre o teatro e a música, que tem como pano de fundo as ideias de recomeço e novos ciclos – perspectivas muito presentes no original do dramaturgo irlandês.

Com arranjos assinados pelos instrumentistas Pedro Rabello, Andreh Vière e Dom, há, também, um cuidado em criar uma linguagem rítmica, melódica e textual que ajudam a contar a história da personagem. “Não suprimimos o texto, ao contrário, nossa preocupação foi a de criar uma linguagem musical direta. Os oito primeiros movimentos correspondem ao primeiro ato do texto beckettiano e nono movimento, demos o nome de ‘prelúdio’, que, na verdade, seria o segundo ato”, conta a diretora.

Ainda segundo ela, o texto de Beckett não é hermético e a abordagem bem-humorada e os simbolismos criados para o espetáculo levam o público a pensar sobre um grande conflito de nosso tempo: a necessidade de expressão das pessoas. “Sempre ouvi que Beckett é incomunicável, e nossa missão foi a de contradizer isto. Todos os movimentos que criamos são feitos a partir de nossa investigação, e para a pesquisa contei com a orientação do professor José Antônio Zille, que foi fundamental para que encontrássemos juntos uma linguagem objetiva. Tivemos uma preocupação quase acadêmica em não banalizar a obra desse grande escritor e dramaturgo”, revela.

Outra curiosidade da montagem é que o vestido usado por Rita dá a impressão de que Winnie e o cenário são a mesma coisa. De acordo com a atriz e diretora, a ideia partiu da necessidade em instaurar uma certa imobilidade à personagem, que parece estar “enterrada” em uma situação difícil. “Essa representação é a nossa versão da terra que Beckett propõe em ‘Dias Felizes’, ou seja, a mesma que consome a personagem e a imobiliza cada vez mais em seus dilemas”, diz.

Projetos

“Dias Felizes” cumpre sua agenda de shows até novembro, com apresentações em algumas das principais praças. Além disso, Rita conta que já tem engatilha outras produções. “Tenho outros projetos paralelos com a autora Daniela Pereira de Carvalho e o diretor de teatro Pedro Brício. Há também o desejo em circular com jovens atores cariocas com a peça “Delírio e Vertigem”.

“Dias Felizes” Teatro Oi Futuro Klauss Vianna (av. Afonso Pena, 4.001, Mangabeiras). Dias 10 (sexta) e 11 (sábado), às 21h; e 12 (domingo), às 19h  - R$15 (inteira)

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