Verdades e mentiras

iG Minas Gerais |

O homem abriu o jornal em busca de notícias que lhe trouxessem alguma esperança. A dois dias das eleições em seu país, leu página por página com o maior cuidado possível. As matérias eram boas, bem-escritas e com temas variados. O problema estava no conteúdo das reportagens – a grande maioria era negativa para a vida do cidadão. Depois, ele fechou a publicação com o olhar triste de quem não conseguiu encontrar nenhum alento. Onde estavam as propostas dos candidatos? Onde estavam as alternativas para o seu Estado? E para o país? O que está acontecendo de bom? Não conseguiu ler em lugar algum. Saúde. Educação. Emprego. Energia. Seca. Chuva. Violência. Impostos. Homofobia. Preconceito racial. Pesquisas. Debate. Diferenças. Mais pesquisas. Ataques. Primeiro turno. Segundo turno. Verdades. Mentiras. Petrobras. Mensalão. São Francisco. Reajuste. Inflação. Governo. Ativistas. Oposição. Gasolina. Etanol. Bolsa. Dólar. Protestos. Religião. Meio ambiente. Julgamento. Viaduto. Calor. Derrota. Vitória. Democracia. Palavras. Elas vão e vêm na cabeça do homem. Não é para menos, estão em todo lugar. Compondo os temas do mês, da semana, do dia. Foi ontem, mas poderia ser relativo a quatro anos atrás. É velho e ao mesmo tempo tão atual. São as palavras mostrando como tudo muda muito pouco. As mazelas continuadas ganham apenas novos contornos, assim como o anseio da população por mudanças. O desejo se renova, mas as alternativas são poucas. O homem procura insistentemente por respostas. Está aflito. Gostaria de fazer algo pelo país onde provavelmente crescerão seus filhos e netos. Ontem, não achou o que buscava nas páginas dos jornais nem na internet. As propagandas eleitorais e mesmo os mais acalorados debates transmitidos pelas emissoras de TV não lhe revigoraram o ânimo. Não achou nada que, de fato, considerasse com o peso adequado para traçar o melhor caminho democrático. O homem é diferente de muitos brasileiros. Ele faz questão de ter sempre boa memória. Consegue se lembrar exatamente em quem votou nas últimas eleições. Acompanhou seus candidatos depois que assumiram seus cargos, cumpriu seu papel de cidadão. E, por isso, está muito preocupado. Não encontrou projetos concretos que o motivassem a sair de casa feliz no próximo domingo. Sente-se obrigado. Ao mesmo tempo, está instigado nas suas dúvidas. Queria mais convicção, mais idealismo, mais coragem, mais clareza, mais objetividade. Tanto de quem se propõe a fazer quanto dos que passam a vida a esperar. O homem queria que o povo aproveitasse as oportunidades para sair do lugar, sacudir rumos, cumprir, enfim, sua obrigação real: menos reclamação e mais ação. O desejo de alcançar algo ideal se esvai com o passar do tempo. A hora se aproxima, e, ainda assim, os embates não param. Mentiras. Verdades. Ataques. Desconfiança. Jogo político. Tudo segue misturado até o minuto final, quando chegar a hora de apertar a tecla “confirma”. O homem luta para guardar consigo qualquer fio de esperança, mas tem dificuldade em segurá-los. O cenário é frágil, e a realidade vai bater à porta dos brasileiros após a apuração dos votos. O que virá? Ao certo, ainda não sabemos. Dias difíceis? Talvez. Melhoras pontuais? Quem sabe. A “sorte” está lançada. O homem vai pagar pra ver. 

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