A complexidade da condição humana na pela de Medeia

Fazer e refazer Medeia tem sido para Denise uma experiência diferente. Ela se renova a cada apresentação

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Atriz foi indicada ao 27º Prêmio Shell pelo espetáculo “Trágica.3”
Victor Hugo Cecatto / Divulgacao
Atriz foi indicada ao 27º Prêmio Shell pelo espetáculo “Trágica.3”

Medeia está para as atrizes, assim como Hamlet está para os atores. É uma espécie de suprassumo do que um personagem pode oferecer. Historicamente, Bibi Ferreira, Maria Callas, entre outras, viveram a heroína trágica. Em 2006, em Belo Horizonte, o Grupo Teatro Invertido fazia “MedeiaZonaMorta”, espetáculo que propunha um desconstrução da personagem, localizada no baixo meretrício de Belo Horizonte, e, recentemente, Marina Viana, fazia uma versão “control C, control V”, recortando e colando as interpretações marcantes de Medeia, em “Klássico (com K)”, do Mayombe Teatro.  

Em “Trágica.3”, espetáculo que estreia nesta sexta no CCBB, o desafio cabe a Denise Del Vecchio, que tem atuação elogiada e indicada ao 27º Prêmio Shell como melhor atriz. “Eu, como toda atriz, sempre quis fazer esse papel, mas eu sempre achei que era preciso ter uma certa idade para conseguir a complexidade que essa mulher requer. Eu andava com esse desejo adormecido, mas quando o Guilherme (Leme Garcia, diretor da peça) me convidou, eu me desfiz de todos os meus compromissos da noite para o dia e topei”, conta Denise.

Mas o que faz de Medeia tudo isso? “Ela é uma personagem clássica da tragédia. Ela não é simplesmente má ou vilã. Medeia é complexa e faz com que as pessoas tenham sentimentos contraditórios em relação a ela. É uma mulher que mata os filhos; ela mata o futuro daquela família. De alguma forma, ela prefere entregá-los à morte a inseri-los naquele mundo. Mas ainda assim o público consegue entender os motivos que a levam a fazer isso. Tem gente que se emociona por ela e pela tragédia de sua vida, mais que pela morte das crianças”, pontua.

A atriz lembra que o fato das tragédias, em sua origem, serem interpretadas por homens talvez dê à personagem uma ambiguidade de gênero que transita entre o masculino e o feminino. “Esses impulsos estão na gente. Essas personagens (as três heroínas que a peça retrata) mostram isso no dia de hoje. Existe a necessidade de se defrontar com verticalidade, aprofundamento de questões que são humanas, que não são apenas femininas”.

Se a atriz considera importante ter envelhecido e vivido mais para encarar Medeia, é de se pensar que suas experiências sirvam de inspiração na composição do personagem. “Eu descobri coisas que eu desconhecia em mim. Uma voz mais grave, por exemplo. Além disso, o Guilherme me propôs ficar sentada. Eu faço um ou dois movimentos de braço em toda a cena. E tem um foco de luz bem fechado em mim. Ou seja, a força está na voz e nas palavras”, comenta.

Ter um diretor homem dirigindo três mulheres tão fortes não foi problema para Denise. Pelo contrário, ela exalta a boa relação com Guilherme Leme Garcia. “É chato quando um diretor é dono da verdade. Afinal, o nome da nossa profissão é intérprete. Ou seja, é a minha visão daquilo. O projeto é do Guilherme e ele sabia muito bem o que pretendia. Ele é um diretor pouco falante, ele fala cirurgicamente o que você precisa ouvir naquele momento”, diz.

Fazer e refazer Medeia tem sido para Denise uma experiência diferente. Ela se renova a cada apresentação. “Basta a gente abrir o jornal para ver as tragédias diárias. Tudo que vivo, leio, sinto num dia interfere no meu trabalho. Ele é muito urgente”, comenta. “Eu não sou nada mística, sou bastante prática e objetiva, mas eu tenho essa sensação de atemporalidade, é como se eu ficasse suspensa durante o tempo em que vivo essa personagem. É um caminho fora do habitual, do comum”.

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