Repensando valores

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Nesta coluna, sempre dei preferência a amenidades e temas leves – tão em falta nos dias de hoje –, procurando evitar a polêmica num campo minado de interesses e paixões como o da política. O problema é que não aguento mais escutar tantas mentiras e ficar balançando a cabeça. Ter que escutar oportunistas e ególatras incorrigíveis me faz mal. Gente que votou contra tudo e todos e, hoje, na maior cara de peroba, diz que estabilizou o país. Como se o país tivesse renascido, moralizado e modernizado a partir de 2003. Gente que herdou a estabilidade da moeda, mudou nomes de programas sociais já existentes, aumentou a abrangência destes devido à bonança preparada anteriormente, gastou horrores em propagandas e divulgação partidária vangloriando-se de ter consertado a casa. Sinto muito, mas não dou conta. Infelizmente, a memória do brasileiro é curta, e, de vez em quando, é necessário lembrar nossa caminhada. Lembrar que medidas de suma importância ao país eram condenadas com estardalhaço e bravatas pelo simples fato de “quanto pior, melhor”. Em vez de gastar neurônios, preferiam ser contrários a tudo, torcendo pelo fracasso, travando os avanços. E que se dane a pátria, inclusive os pobres. Estes não podiam receber benefícios, precisavam sofrer e, assim, torcer por mudanças. Antes, o mandamento era ser contra tudo o que, depois, no exercício do mandato, adotaram. Desde o Plano Real, a Responsabilidade Fiscal, o Proer, a privatização da telefonia, até o Bolsa Família, antes chamada de Bolsa Escola e Bolsa Alimentação. Sobre o Plano Real, diziam que se tratava de uma “medida eleitoreira”. Me desculpem, mas “eleitoreira” para mim é a gestão da Petrobras, cabidão de companheirada e poço sem fundo de bandalheiras. “Medida eleitoreira” é espalhar aos quatro ventos que querem acabar com o Bolsa Família e até mesmo com o programa Jovem Aprendiz. Ouvi isso de um motorista de táxi, que só não vai votar na Marina porque “ela vai acabar com tudo isso” e mais alguma coisa. De onde ele tirou isso? Vai saber! Na internet é só pancadaria, mentiras de todo jeito, de um lado e de outro. Mas deixo a fantasia de lado para falar da realidade, tão cheia de escândalos e corrupção. Se a sociedade não se conscientizar e dar um BASTA nessa sem-vergonhice constante que só descobrimos por meio da imprensa, sinceramente não sei onde vamos parar. O pior é que a coisa está generalizada, a própria sociedade começa também a se contaminar pelos péssimos exemplos que vêm de cima. E passam a achar tudo normal. Conversando com um amigo, ele me disse com muita naturalidade que um conhecido seu, advogado, e vários outros adquiriam casas do Minha Casa, Minha Vida através de “laranjas”, alugando-as depois por R$ 500. Um deles conseguiu uma casa em seu próprio nome, pois era parente ou chegado de um funcionário da Caixa, ou seja, nem precisou arrumar um “pobre coitado” para colocar no lugar. O mais impressionante disso é que os valores e princípios morais, ou melhor, a falta deles está tão arraigada que essas pessoas nem sequer têm vergonha dos seus atos, pelo contrário, os contam aos quatro ventos como que a dizer “vejam como sou esperto!” E os honestos? “Uns trouxas, claro!” Só de ouvir casos assim arrepio, como a reportagem que li sobre uma ONG da Bahia que desviou milhões de reais, dinheiro público, diga-se de passagem, destinado à construção de casas populares. Adivinhem onde esse dinheiro foi parar? Aliás, esse negócio de ONG virou uma roubalheira institucionalizada. Claro, existem muitas sérias e comprometidas com o social, mas o que tem de ONG picareta, tipo essa baiana, não é brincadeira. De acordo com a reportagem, feita em cima de declarações da sua própria administradora, Dalva Sele, foram desviados mais de R$ 6 milhões do Fundo de Combate à Pobreza para campanhas eleitorais. E nesse balaio entraram como beneficiados um senador, dois deputados federais, o atual candidato a governador e um ex-ministro. É triste constatar a banalização do crime. Os escândalos são tantos que as pessoas já comentam tudo com naturalidade, sem indignação, como o caso que meu amigo me contou sobre as casas surrupiadas dos pobres. Hoje o que funciona é a lei dos mais “espertos”, dos sem-escrúpulo, dos sem-vergonha... Presenciamos, inertes, o enterro da moralidade, da ética, da justiça, da honestidade. Já está passando a hora de ressuscitar os velhos e bons valores, enquanto ainda há tempo, afinal, não é este o país que desejamos aos nossos filhos e às próximas gerações.

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