O país no porto eleitoral

iG Minas Gerais |

O Brasil que chega às eleições do próximo 5 de outubro se assemelha ao navio que chega ao ancoradouro com instalações precárias, motor quase parando, depois de realizar uma travessia cheia de borrascas no giro por grandes oceanos. A longa viagem não foi em vão. O país que se aproxima de um novo pleito presidencial se mostra disposto a fechar um ciclo que pode ser registrado com o selo da “mesmice” e abrir uma era de efetivas mudanças. O povo nas ruas sinaliza o encontro do cidadão com a pertinência que lhe dá o direito de se achar o legítimo dono do poder. A descoberta não é obra do acaso. Desenvolveu-se ao longo de anos a fio de convivência social com práticas depravadas na política, promessas nunca cumpridas e escândalos. O senso crítico ganhou forma, espraiando-se por um tecido social mais orgânico e agora disposto a cobrar a fatura dos governantes. Explica-se, assim, a redistribuição do poder, saindo do centro para as margens. A polarização entre tucanos e petistas, que se desenvolveu ao longo das últimas três décadas, sinaliza cansaço. Só no Mato Grosso do Sul e em Minas vê-se ainda um debate entre os nomes dos dois partidos. Seria possível afirmar que o país está dividido? Sob o prisma aritmético, levando em consideração as preferências eleitorais entre candidatos, a resposta é positiva. Mas a ampla maioria da população concorda com a necessidade de mudanças na gestão e na política, seja com a candidata à reeleição, Dilma, seja com a opositora Marina ou o tucano Aécio. Não se pode negar, porém, que os ânimos estão acirrados também em função do recorrente discurso do PT, que teima em separar os habitantes do território entre “nós” e “eles”, na defesa do apartheid que azeda relações entre grupos e classes. A situação se agrava quando o PT se torna fonte central de casos de corrupção. Não é outra razão pela qual o Partido dos Trabalhadores, mesmo ganhando a cadeira maior do Palácio do Planalto, não terá a força de outrora. Também o PSDB, mesmo continuando à frente de Estados importantes, como São Paulo, terá uma fatia menor no bolo do poder, perdendo envergadura. Trata-se também de partido desgastado, que não soube canalizar forças em seu papel de oposição ao governo federal. O conjunto de fenômenos que marcam a atual quadra política se completa com uma leve guinada conservadora. Seria exagero defender a hipótese de que o país faz uma curva forte à direita. Mas é possível divisar tênue marca conservadora. Sob outro ângulo, o próprio perfil da candidata do PSB parece ser um corpo estranho ao hábitat da sigla. Marina, evangélica, defende posições duras em matérias que ferem postulados da fé religiosa (ou batem no intocável e sagrado templo ambientalista), ganhando de críticos o epíteto de “fundamentalista”. Este é o Brasil sociopolítico que aporta no ancoradouro das eleições. Sem mudar os cascos, o velho navio não suportará novo e longo trajeto. O próximo tripulante, seja quem for, terá de levá-lo ao estaleiro para fazer nele uma boa reforma e garantir aos passageiros uma viagem sem sustos.

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