Roteiros criados pela via literária

Aplicativo e site propõem aproximação entre a literatura brasileira e os espaços geográficos de algumas cidades

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Paisagens. O Rio de Janeiro do século XIX apresentado por Machado de Assis em seus romances é confrontado com a versão atual e mais urbanizada da capital
fotos: o rio de machado/divulgação
Paisagens. O Rio de Janeiro do século XIX apresentado por Machado de Assis em seus romances é confrontado com a versão atual e mais urbanizada da capital

O Rio de Janeiro conhecido pela literatura de Machado de Assis ou a Recife de algumas décadas atrás apresentada por autores contemporâneos estão acessíveis a qualquer um, sem a necessidade de recorrer ao milagre de uma máquina do tempo. Um passeio por lugares que aparecem na literatura brasileira e encontram correspondência geográfica nessas cidades é o foco do aplicativo O Rio de Machado e do projeto Cidade em Palavras (leia mais na página 2), que têm tornado viável uma maneira curiosa de conectar ficção, presente e memória.

O primeiro é lançado durante os seminários que acontecem entre hoje e amanhã no Museu de Arte do Rio (MAR), e reúne especialistas na obra de Machado de Assis, como a professora da USP Walnice Nogueira Galvão, além dos autores José Miguel Wisnik, Alberto Mussa, e da crítica literária Beatriz Resende, entre outros. Ao mapear cerca de cem pontos da capital carioca, o Rio de Machado permite, assim, um percurso virtual por meio de trilhas inspiradas em noves romances do autor: “Ressurreição”, “A Mão e A Luva”, “Helena”, “Iaiá Garcia”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Quincas Borba”, “Dom Casmurro”, “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires”.

O dispositivo torna possível localizar, por exemplo, a região onde Capitu e Bentinho, personagens de “Dom Casmurro”, teriam passado a lua de mel. “No livro, eles vivem esse momento no Alto da Boa Vista, que corresponde à parte mais alta do bairro da Tijuca. Naquela época, esse, que é um bairro super populoso, era um lugar ocupado por chácaras. Por ficar mais próximo da região de florestas, o bairro tinha um clima mais ameno e as pessoas gostavam de ir para lá curtir pequenas férias”, explica Daniela Name, uma das idealizadoras do aplicativo.

Ela ressalta que possibilitar o contato com informações históricas, além da visualização de imagens e leitura de trechos originais é uma das vantagens da iniciativa que viabiliza mais de uma opção de diálogo com a literatura do escritor.

“Nós selecionamos os trechos e construímos esses trajetos a partir de dois principais critérios: o primeiro deles é frisar um dado geográfico ou histórico da cidade que é relevante. O segundo está ligado à própria beleza poética do texto. A passagem da lua de mel entre Bentinho e Capitu tem esse mérito. Outra questão interessante é como as pessoas vão poder perceber que, às vezes, um local, como uma rua citada por Machado de Assis em uma história, de fato existe, mas daquela época para agora, houve uma mudança de nome”, pontua Name.

“É o caso da rua Mata Cavalos, que aparece também em ‘Dom Casmurro’. Ela recebia esse nome porque ficava muito enlameada. Os cavalos que passavam ali, quando escorregavam, se fraturavam e precisavam ser sacrificados. Hoje, a via onde Bentinho e Capitu moravam na infância se chama Riachuelo e é localizada na Lapa”, acrescenta ela.

Referência. Para conceber o mecanismo que entrou no ar anteontem para os usuários do sistema Android, a também idealizadora Gabriela Dias conta que elas tomaram como referência um trabalho semelhante desenvolvido em Londres, com o escritor Charles Dickens.

“Nós começamos uma pesquisa em 2012 e descobrimos um aplicativo que permitia ao público percorrer quatro diferentes percursos a partir dos passos dos personagens de Dickens. Nós achamos o formato interessante e o tomamos como base para criarmos esse que apresentamos agora”, afirma Gabriela Dias, que naquele ano deixou o trabalho numa editora para atuar como consultora digital independente.

Motivou a realização dessa proposta a constatação de que obras-primas da literatura brasileira ainda não haviam sido exploradas de maneira criativa em plataformas digitais, impulsionando a aposta em outras possibilidades de leitura. “Nós queríamos algo que provocasse e difundisse o contato com esses textos de forma diferenciada. A intenção não é competir com a experiência que o leitor tem em contato com a página, mas estimular outras maneiras de engajamento, usando os dispositivos móveis”, acrescenta ela.

Logo que começou a trabalhar nesse nicho, Dias afirma que visualizou nele o potencial para se construir uma coleção. “A intenção é buscar parceria para expandir essa ideia com o trabalho não só de escritores, mas também de outros artistas, oriundos de várias regiões. Fico imaginando que em Minas Gerais, por exemplo, um projeto belíssimo poderia ser criado com a obra de Guimarães Rosa”, pontua.

Para Name, os paralelos entre ficção, passado e presente, tecidos pelo uso do aplicativo, contribuem não só para a fruição das obras, mas para o possível desenvolvimento de um olhar crítico. “No caso do Rio de Janeiro, por exemplo, as pessoas vão perceber como a cidade se desenvolveu aterrando os acessos à praia. O lugar onde Escobar, o rival de Bentinho, morre afogado naquela história hoje encontra-se aterrado com a areia do morro do Castelo. Ou seja, escrever algo do tipo atualmente seria inviável”, conclui.

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