Eletrônico maluco deixa o rock iê-iê-iê para trás

“Costa do Marfim” subverte todos os trabalhos da banda ao abusar de beats e loops

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Visual. Terninhos pretos e boinas retrô saíram de cena para dar lugar a roupas mais extravagantes
cava records/divulgação
Visual. Terninhos pretos e boinas retrô saíram de cena para dar lugar a roupas mais extravagantes

Gaivotas gritam junto às quebras de onda do mar. Macacos urram ao som de tambores africanos, enquanto cinco caras parecem se divertir em clima de festa com loops e beats malucos que sustentam uma música de apenas seis versos por incríveis 10min54s. Talvez a melhor forma de ouvir “Costa do Marfim” (Cava Records, R$ 35 em média), sétimo álbum da banda gaúcha Cachorro Grande, seja não procurar entender essas e outras doses psicodélicas de criatividade atípica. Pelo menos não a partir daquele conceito de uma banda que até ontem vestia terninhos sessentistas ao estilo iê-iê-iê britânico, mas agora parece ter pirado numa viagem que mescla guitarras com influências africanas e densas bases eletrônicas.

A ruptura é grande e pode assustar. Afinal, em 15 anos de estrada e seis discos lançados, a Cachorro Grande apresentou um rock n’ roll evolutivo de baladas inteligentes, mas sempre a partir da tradição de guitarras, baixo, bateria e piano. “Costa do Marfim”, no entanto, tem a mão essencial de Edu K. na produção musical, que trouxe ao disco influências de My Chemical Brothers e Nine Inch Nails até AC/DC. Considerado o sexto integrante da banda no disco, o ex-vocalista do De Falla é das maiores autoridades em música pop do país, tendo transitado do hardcore ao funk carioca, mas com uma carreira internacional calcada em eletromusic desde 2009.

É dele a canalização eletrônica que transformou 11 demos gravadas no violão, na casa do guitarrista Marcelo Gross, em verdadeiras pílulas explosivas de eletro-rock. Assim, Edu K. assina quatro faixas do álbum, a exemplo de “Fizinhur”, um instrumental no piano eletrônico bluseiro de Pedro Pelotas, encorpado por gargalhadas da banda e beats frenéticos, até a estranha “Torpor Partes 2 & 5”, que narra uma história-poema na voz de Beto Bruno em extravagantes 8min19s.

A despreocupação com o tempo, aliás, parece completamente natural no álbum. Nesse sentido, “Nós Vamos Fazer Você Se Ligar” pode representar a nova postura da banda, ao ter uma letra enxuta de apenas uma estrofe, mas que se sustenta em um arranjos com mais de dez minutos.

Por isso, “Costa Do Marfim” se afirma como um disco muito mais instrumental do que de letras rebuscadas, onde sons indianos de cordas, como a viola conhecida como Sitar, até o pandeiro tupiniquim são reproduzidos em harmonia com sintetizadores de Edu K. Mesmo pautados por bases eletrônicas fortes, os cinco músicos gaúchos colocam para fora as influências roqueiras. Enquanto a bateria de Gabriel Azambuja não sucumbe sob efeitos artificiais dos beats, a guitarra de Marcelo Gross continua afiada e apresenta solos altos e melódicos, como os riffs de “Eu Quis Jogar”.

Apesar de garantir que o disco “não vai tocar na rádio, então qual o problema de deixar a música do tamanho que a gente quiser?”, o vocalista Beto Bruno dá vida a baladas pontuais que lembram os velhos clipes dançantes da banda na MTV. “Como Era Bom” é candidata à single radiofônico, sendo a única canção do disco em que é possível ouvir um violão na introdução, ainda que por menos de dez segundos. Em suma, “Costa do Marfim” é experimental ao mesmo tempo em que chega perto de flertar com o pop. Um disco que vale tanto para pilhar pistas de dança como para incendiar viagens abstratas dentro de um quarto silencioso.

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