Cinema com sangue fervente

Projeto traz a Belo Horizonte Sidney Magal, estrela de “Amante Latino”, para bate papo após exibição do longa

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Fenômeno. O longa pegou carona no sucesso dos dois primeiros álbuns do cantor nos anos 70
CURTA CIRCUITO
Fenômeno. O longa pegou carona no sucesso dos dois primeiros álbuns do cantor nos anos 70

No fim dos anos 70, o cineasta Pedro Carlos Rovai estava filmando na pequena cidade de Penedo, no Rio de Janeiro, quando teve que atravessar um rio para chegar em uma locação. Ele parou na margem do outro lado, em uma pequena birosca, e viu um pôster de Sidney Magal. “O Rovai perguntou e o dono respondeu: ‘O Magal é o maior ídolo da região’”, conta o cantor, que vivia o auge da sua carreira, após os sucessos de “Meu Sangue Ferve por Você” e “Sandra Rosa Madalena”.

Nascia ali a ideia de “Amante Latino”. O longa estrelado por Magal foi lançado em 1979, restaurado recentemente e será exibido nesta segunda no projeto Curta Circuito, às 19h, no Cine Humberto Mauro, com a presença do próprio Sidney Magal para um debate após a sessão.

A produção resultou do encontro de Rovai com os empresários do músico, logo após voltar para o Rio de Janeiro. “Ele disse que queria fazer um filme que misturasse ficção com realidade porque eu era uma figura muito controversa, divertida e extravagante. Então, gostaria de que o roteiro fosse escrito por alguém que conhecesse meu trabalho”, explica Magal.

O nome escolhido foi ninguém menos que o de Paulo Coelho. Na época executivo da gravadora Polydor, o mago e futuro escritor já havia escrito músicas e versões para o cantor, e era apontado como um dos grandes responsáveis pela invenção da persona bem-sucedida de Magal – meio cigano, misterioso, latin lover, um homem que dança. Não por acaso, Coelho decidiu explorar a longínqua descendência cigana do músico carioca e contar a história de um cantor que tenta salvar o colégio que estudou na infância e a tribo onde nasceu.

“Quando chegaram até mim, o projeto já estava todo pronto, com roteiro, e eu achei ótimo porque tinha várias canções dos meus dois discos e seria uma boa divulgação”, lembra Magal. O cantor, inclusive, brinca com o número de sequências musicais, ressaltando que não sabia atuar, apesar de já ter participado de alguns musicais do teatro na época, inclusive uma versão de “Roque Santeiro” dirigida por Bibi Ferreira – mas sempre como cantor. “Eu fui muito fraquinho como ator. O diretor falava ‘vamos dar poucos diálogos para ele, deixar ele cantando’. Foi muito engraçado pela minha falta de experiência”, revela.

As memórias que Magal guarda do set de “Amante Latino” são os grandes nomes do elenco, como Angelina Muniz, Monique Lafond, Elke Maravilha e Regina Dourado – que ele mesmo convidou para seu primeiro papel no cinema. E situações engraçadas, como seu mergulho de terno branco na água suja da ponte Rio-Niterói para uma cena em que seu personagem fugia de um iate até um barquinho. Ou a cena em que ele teve que montar um cavalo no acampamento cigano. “Só conseguiram arrumar um pangarezinho e eu sou muito alto. Então, meu pé ficou arrastando no chão e eu tive uma crise de riso”, recorda.

Apesar de Magal ser humilde quanto ao seu trabalho como ator, é inegável seu talento como performer – e a importância que isso teve em sua carreira. “Ao lado de Ney Matogrosso, ele é o artista dos anos 70 que evoca o imaginário brasileiro em torno do corpo, da música corporal brasileira, da música popular que é muito física e dançante”, analisa o músico e historiador Guto Borges, que escreveu o texto sobre “Amante Latino” no catálogo do Curta Circuito e media o debate desta noite.

Para ele, se a persona de Magal foi uma invenção da gravadora, da qual o filme faz parte, o cantor é o responsável por abraçá-la e executá-la à perfeição. “E isso não seria possível sem o cinema e a TV, sem o Chacrinha, sem imagens”, argumenta. Não por acaso, Sidney continuaria a aparecer em novelas – como “Ana Raio e Zé Trovão” e “Da Cor do Pecado” – e filmes, como “Jean Charles” e “Caminho das Nuvens”. “E já fui sondado para fazer um longa sobre minha história de amor fulminante e à primeira vista com minha esposa para o ano que vem”, provoca Magal.

Curta Circuito

“Amante Latino” – seguido de bate papo com Sidney Magal Quando. Nesta segunda, às 19h

Onde. Cine Humberto Mauro – avenida Afonso Pena, 1.537, centro

Quanto. Entrada franca

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