Rock nacional revelado em K7

Quatrocentas fitas que contam a história esquecida do BRock são masterizadas e poderão ser baixadas de graça na web

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Pitty. De 1996, a demo da extinta Inkoma traz a cantora baiana com voz de adolescente, gritando repertório pesado de hardcore
DEMOTAPE/DIVULGAÇÃO
Pitty. De 1996, a demo da extinta Inkoma traz a cantora baiana com voz de adolescente, gritando repertório pesado de hardcore

Em algum ano perdido no fim da década de 1980, o hoje badalado produtor Kassin, ao lado de Formigão, baixista do Planet Hemp, e Bacalhau, baterista do Autoramas, ligaram um tape deck na sala de casa para gravar uma fita cassete despretensiosa. O motivo? Tentar tocar no Festival Demo Tape, que rodou por Brasília, Belo Horizonte e São Paulo nos anos 90. “Formamos a banda Alcaselcer, que levava o nome de uma marca de sal de fruta da época (Alka-Seltzer), só para o festival. Fizemos a capa da fita em um papel de pão pardo, colamos com durex e mandamos por correio. Gravamos todos os instrumentos juntos com um microfone só, mas nunca fizemos o show. Só que esse espírito do ‘faça você mesmo’ borbulhava na época, era a saída para as bandas alternativas”, lembra Bacalhau.  

Baseado na nostalgia de fitas K7 que formaram uma geração inteira entre 1980 e o início dos anos 2000 – resistindo até hoje com alguns lançamentos de bandas novas –, o músico Gabriel Thomaz, guitarrista do Autoramas, resolveu digitalizar um arquivo pessoal de 400 fitas K7 de diversas bandas esquecidas no país, mas que lotaram casas de shows e até estádios há mais de 20 anos. Além disso, o trabalho que deve ser lançado para download gratuito na internet até o fim do ano, reúne pérolas remasterizadas do início da carreira de Los Hermanos, Planet Hemp, Raimundos, Eddie, Pitty, Mundo Livre S/A e muitos outros.

Em tempos de informações cada vez mais robustas divulgadas gratuitamente na rede, Gabriel Thomaz percebeu que a memória de importantes bandas de rock nacionais pareciam cair no limbo até mesmo para o Google. “Um dia, por volta de 2003, eu comecei a procurar na internet por algumas bandas como Pano com Ovo, OZ, Pinheads, e não tinha absolutamente nada sobre essas bandas no Google. Nada. Aí eu pensei: essa geração não foi feita nem em cassete nem em vinil e vai acabar apagada. Não vou deixar isso acontecer”, diz.

Por isso, o músico vai disponibilizar gratuitamente em uma plataforma de streaming uma coletânea de fitas K7 digitalizadas de mais de cem bandas nacionais para audição e download. A novidade vai estar no ar junto com o lançamento do livro “Magnética 90” (Edições Ideal) – previsto para sair até março do ano que vem. A publicação é a primeira do país a contar em detalhes as histórias de bandas como a Little Quail & The Mad Birds, do próprio Gabriel Thomaz, que gravou o primeiro disco, “Lírou Quêiol en de Méd Bârds” (1993) por causa de uma fita demo.

“No livro eu traço um perfil de cada banda, conto casos sobre fitas e exponho a importância delas para o cenário do rock. Em Curitiba, a banda Oz lotou um estádio em Brasília certa vez. Em Belo Horizonte, os Baratas Tontas faziam shows para 5.000 pessoas e todo mundo cantava em coro a música que dizia ‘aquele tênis preto amarrado na canela’”, diz.

O produtor carioca Rodrigo Lariú, dono do selo independente Midsummer Madness, conta que lançou mais de 70 bandas em cassete desde 1994, e que as fitas demo mudaram a forma como as gravadoras selecionaram seus artistas. “Fazer uma fita K7 custava até 15 vezes menos do que um LP, que só era prensado no Rio e em São Paulo e exigia tiragem mínima de mil cópias. Depois que inúmeras bandas desconhecidas fizeram suas fitas, o negócio explodiu. Até quase nos anos 2000, mesmo com o CD na ativa, bandas famosas hoje preferiram as fitas para divulgar as primeiras músicas. Os Los Hermanos gravaram ‘Azedume’ numa fita de 1998, os Raimundos cantaram numa K7 de 1993 o sucesso ‘Nêga Jurema’ antes da fama”, diz.

PROCESSO. Das 400 fitas do acervo de Gabriel Thomaz, saíram cerca de mil músicas de mais de cem bandas diferentes. Todo o processo de digitalização foi realizado pelo companheiro de banda no Autoramas, o baterista Bacalhau. O músico usou um tape deck Gradiente para transformar as músicas das K7s para formato digital (wav), e todas as canções foram masterizadas no Estúdio Superfuzz, no Rio de Janeiro. “Meu maior trabalho foi equalizar o som de fitas de materiais diferentes como metal, ferro, plástico, que muda muito o som. Além de ter que limpar o cabeçote do tape deck a cada duas fitas gravadas, porque elas estavam sujas demais”, diz.

Entre algumas pérolas garimpadas por Gabriel Thomaz e Bacalhau, está a canção “Zerovinteum”, do Planet Hemp (“a qualidade da gravação é horrível e é bem diferente da original”), uma versão remasterizada de “Sábado de Sol”, gravada originalmente pelos curitibanos do Baba Cósmica em 1995, antes da versão mais famosa dos Mamonas Assassinas, além de uma fita demo de uma das primeiras bandas do guitarrista do Pato Fu, John Ulhoa, a nervosa Sexo Explícito, de 1982. “O legal é ver a relação de mainstream e independente lado a lado. O K7 formou bandas e um jeito de ouvir música. Existe uma história do rock que só se pode ser conhecida ouvindo as fitas K7”, diz Gabriel Thomaz.

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