Protagonismo sem espelho

Projeção de Dilma Rousseff, Marina Silva e Luciana Genro não reflete representatividade feminina

iG Minas Gerais | Larissa Veloso |

Dilma foi torturada durante a ditadura e chegou à Presidência
ALEX DE JESUS/O TEMPO
Dilma foi torturada durante a ditadura e chegou à Presidência

A eleição presidencial de 2014 tem grandes chances de ser a primeira a ter um segundo turno disputado por duas mulheres. Além disso, um recorde já foi quebrado no que diz respeito ao número de candidatas ao Palácio do Planalto: são três entre os 11 postulantes. Duas delas – Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PSB) – polarizam a disputa, e a outra, Luciana Genro (PSOL), chegou a ser citada a cada 30 segundos nas redes sociais após o debate promovido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

No entanto, a projeção conseguida por elas contrasta com a realidade de muitas mulheres que se embrenham pela política no Brasil. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), neste ano, dos 25 mil candidatos, apenas 7.407 são mulheres – um índice de 29,73%, ainda abaixo da cota de 30% obrigatória, estabelecida pela lei eleitoral. Entre as deputadas federais eleitas em 2010, a representação é ainda menor. Apenas 45 dos 513 parlamentares são mulheres: 9% do total. Isso significa que o brasileiro não gosta de eleger mulheres como deputadas? Não necessariamente. “Os partidos não dão quase nenhuma atenção às mulheres. Elas reclamam de um desinteresse, de falta de apoio financeiro e político, nem que seja para subir no palanque e tirar fotos”, afirma a coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher da Universidade Federal de Minas Gerais (Nepem/UFMG), Marlise Matos. A falta de recursos inclusive foi constatada em uma pesquisa realizada pela Unicamp, que analisou os recursos recebidos pelos candidatos em 2010 e constatou que as candidatas à Câmara dos Deputados receberam, em média, 53% menos dinheiro que os homens. TOPO. Dilma, Marina e Luciana, obviamente, não são candidatas que perdem recursos para os homens dentro de seus partidos. Mas isso não significa que não passaram por dificuldades antes, além de terem que travar suas próprias batalhas. “Cada uma delas teve que criar sua própria trajetória, e nenhuma delas começou a carreira a partir dos maridos. Então, elas são três fortes exemplos”, afirma o cientista político da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV) Marco Teixeira. Quando indagados se o protagonismo de Dilma e Marina estimularia os partidos a mudar sua política em relação às mulheres, os especialistas divergem. Enquanto Marco Teixeira acredita que sim, Marlise Matos não é tão otimista. “Acho que, sozinha, a imagem de Dilma (e de Marina) não é suficiente. Temos uma pressão muito grande dos movimentos sociais, da academia, de políticas do próprio governo. As mudanças são fruto de um trabalho muito longo nos bastidores”, avalia a pesquisadora.

Recente Governo feminino. De acordo com o cientista político Marco Teixeira, a primeira mulher a ser eleita governadora foi Roseana Sarney, já no ano de 1995, no Estado do Maranhão.

Índice da ONU Desigualdade. A diferença entre o número de mulheres e homens no Congresso fez com que o Brasil ficasse mal colocado no Índice de Desigualdade de Gênero (IDG) da ONU. Como apenas 9,6% das cadeiras da Casa são ocupadas por mulheres, o país ficou na 80ª posição, atrás de Argentina, Chile e países como Líbia e Kuwait. O IDG também considera outros dados como a mortalidade materna.

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