Atendimento a doente mental cai pela metade em dois anos

Para especialistas, protocolo para realizar o diagnóstico pode estar sendo feito de forma errada

iG Minas Gerais | Aline Diniz |

Relação. Falta de atendimento especializado, como ocorre nos Cersans, pode ter influenciado na procura
RICARDO MALLACO / O TEMPO
Relação. Falta de atendimento especializado, como ocorre nos Cersans, pode ter influenciado na procura

“Ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, consentâneo (adequado) às suas necessidades”. Essa é uma das garantias da Lei 10.216/2001, que regula o tratamento de pessoas com transtornos mentais no Brasil. Entretanto, segundo dados do Datasus, esse direito pode não estar sendo assegurado em Minas Gerais. Dados fornecidos pela Secretaria de Estado de Saúde (SES) mostram queda de 53,72% no número de procedimentos ambulatoriais relacionados ao tratamento de pacientes com algum tipo de sofrimento mental, entre os anos de 2011 e 2013. O total desses procedimentos despencou de 5.271.624 para 2.832.318 no período citado.

O psiquiatra e presidente da Associação Mineira de Psiquiatria, Maurício Leão, não se surpreendeu com a redução. Para o médico, o fenômeno tem duas explicações: ineficiência nos diagnósticos e migração de pacientes para planos de saúde. “A forma como se estrutura a assistência mental no Brasil está focada muito mais nos profissionais ‘não médicos’ (enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psicólogos, entre outros), que não estão habilitados a dar diagnósticos médicos específicos. É uma assistência muito mais psicossocial”, critica.

Leão argumenta que o sistema de saúde mental está estruturado em forma de rede, que inclui unidades básicas de saúde. “Nessas unidades básicas, não existem profissionais especialistas, consequentemente, há uma redução no número de diagnósticos”, afirma.

A segunda causa para a redução do número de procedimentos, na análise do presidente, é a migração de pacientes para consultórios particulares. “Se você procura na rede pública e não acha, parte para a particular”, acredita Leão. Em casos de sofrimento mental, ele considera que até pessoas de baixa renda se empenham para conseguir pagar o tratamento.

Erro. O psicólogo e membro do Conselho Regional de Psicologia (CRP) Celso Renato Silva considera que o modelo de atendimento está equivocado e não dá margem para ampliar a discussão sobre aumento ou redução da demanda. Gerente do Centro de Referência em Saúde Mental (Cersam) Betim, Silva considera que a concepção de sofrimento mental precisa ser ampliada para outras dimensões, como trabalho, lazer, cultura, entre outros. “Somente quando agregarmos todos esses aspectos, conseguiremos romper com definições que reduzem toda a discussão a dados”, afirma.

Andreia Aparecida Araújo, 34, tem depressão e síndrome do pânico. Após parar o tratamento há oito meses, teve um surto há uma semana e resolveu retomar o cuidado. No Cersam Venda Nova, ela recebeu atendimento de um psiquiatra e de um psicólogo. “O psicólogo conversou comigo e marcou para que eu viesse na semana que vem. Eles me deram medicação para 15 dias”, disse. Ela gostou da recepção no Cersam. “Foram atenciosos. A conversa ajudou bastante, saí de lá até chorando”, completou.

Atendimento

Modelo. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde, cada caso é atendido individualmente e avaliado. Se houver necessidade de um diagnóstico médico, este é feito pelo psiquiatra do Cersam.

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