Luta e resistência pelo teatro

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

bob sousa/divulgação
O Ecum é um dos projetos mais vigorosos e potentes que conheço. Isso se deve à excelência dos profissionais

No domingo passado terminou a mostra CIT-Ecum que trouxe a Belo Horizonte peças de alta qualidade produzidas no Brasil. Além disso, como sempre ocorre, a mostra realizou um Fórum que buscou dialogar com o contexto cultural, político e social vivido hoje no país. Nessa entrevista, o curador fala sobre a história e a importância do CIT–Ecum para o cenário teatral brasileiro.

A Mostra do CIT-Ecum optou por um formato mais enxuto, porém mais consistente de espetáculos – se compararmos com outros festivais nacionais. Isso é um diferencial?

Acredito que sim. Quantidade nunca foi sinônimo de qualidade. Minha lista inicial tinha pelo menos oito possíveis trabalhos que ainda não haviam se apresentado em Belo Horizonte. Se um dos critérios não fosse o ineditismo, a lista aumentaria. Isso revela o alto nível do teatro brasileiro. Estive três longos períodos em Moscou e tenho certa familiaridade com o teatro russo. Apesar de terem uma realidade, uma tradição teatral muito mais antiga e consolidada que a nossa, não poderia dizer que o nosso teatro deve nada a eles. Se pensarmos, hoje estamos mais na “avant-garde”, à frente do campo de batalha artístico mesmo. Essa mostra prova isso. São trabalhos de ponta, no sentido de um pensamento teatral apurado. São estéticas que são “gestalts”, formas e pensamentos artísticos muito refinados, de vanguarda e que não podem ser dissociados um do outro. Se tivéssemos mais recursos, de fato a mostra poderia ter sido um pouco maior sim, existiam trabalhos para isso. Entretanto, é preciso que se entenda que o teatro é uma arte muito cara. E não existe problema algum nisso. É assim e ponto. Afinal se trata de uma arte que é a reunião de todas as artes, e além disso uma arte coletivamente presencial e relacional, desde o seu início até o seu fim. Isso custa. Tenho horror dessa bobagem de dizer que o teatro está morto ou vai morrer. Isso nunca irá acontecer enquanto houver duas pessoas no mundo. Prefiro sim dizer que a grande parte do que se faz e se vive nos dias de hoje é inútil e dispensável. Vivemos dias difíceis. Concordo com o Zé Celso (Martinez Corrêa, do Teatro Oficina) quando diz que o teatro é um lugar de muito poder, por isso que em épocas sombrias, o teatro é sempre perseguido, degradado. Mas nós somos fortes. Envergamos sim, mas quebrar, isso já é outra coisa. Este ano todo o dinheiro foi pra Copa, eleições.... Um horror. Mesmo assim realizamos a mostra. Talvez um pouco menor, mas de forma alguma, menos potente. O que norteou a sua curadoria? Existem traços fundamentais que unem os espetáculos dessa mostra?

A excelência. Os russos têm uma frase famosa: “É assistindo a bom teatro que se aprende a fazer bom teatro”. E isso não apenas forma os artistas de teatro, mas também o público. É assim que se constrói e se consolida uma tradição teatral. O espectador vai assistir a um bom espetáculo, se ele tem uma experiência transformadora, ele vicia, ele volta. Nesse sentido, muito da escolha desses trabalhos também tem a ver com a sensibilidade, a possibilidade de tanger o espectador num lugar sensível. São trabalhos muito distintos, diversos, mas todos tocam o espectador nesse “nervo sensível”. É difícil falar a sério em traços fundamentais. Isso parece um pouco coisa de academia, no final soa um pouco esquemático demais. Poderia inventar aqui uma série de coisas nesse sentido, um monte de conceitos bonitos, talvez muitos deles fariam bastante sentido, mas prefiro dizer que são obras criadas por meio de muito trabalho. Muito trabalho mesmo. São artistas que se debruçaram a fundo e meteram muito a mão na massa. A cada dia acredito mais na potência do ato do trabalho. Essa beleza que vemos numa obra, “a flor do ofício” – como diria Grotowski –, é o resultado de dias, meses, às vezes anos até, de um trabalho braçal mesmo. Veja o “Recusa”, por exemplo, eles ensaiaram durante mais de três anos esse trabalho. Quem pesquisa, cria um trabalho durante todo esse tempo hoje? Isso não é profissão mais, entende? Isso é uma vida. A propósito dos espetáculos, vemos que alguns deles já cumprem uma carreira mais longeva e são menos “frescos” no mercado. Nesse contexto das produções e das leis de incentivo, esses grupos nadam na contracorrente. Ou não?

O mercado não possibilita de fato a circulação desses trabalhos. O que possibilita isso é essa rede independente, formada por artistas e companhias que, sim, trabalham já faz muito tempo em rede, na contracorrente, e de certa forma “independente”. E essa rede é toda uma comunidade de luta e resistência artística que existe nesse país. A ditadura fez de tudo para diluí-la, destruí-la, mas não conseguiu. Já o mercado, ou a ditadura do mercado, do teatro comercial, talvez artisticamente tenha pouco a ver com isso. Eu diria que artisticamente, o teatro comercial é uma realidade paralela. Quando digo isso, digo no sentido artístico mesmo, no fato de que eu não acredito que o avanço do mercado possa de fato aniquilar ou paralisar a criação verdadeiramente artística. Os artistas farão sempre o que farão, faça chuva, faça sol. Em condições mais favoráveis ou em tempos de guerra. Isso não significa que não deve haver uma luta frente às distorções e perversões do mercado. Esse campo de batalha existe e é uma luta mais que urgente e diária. A batalha de estabelecer uma política cultural nesse país apenas começou. Lei de fomento em âmbito nacional, leis que regularizem e protejam os espaços teatrais são algumas das pautas que urgem. Um dos pontos fortes do Ecum é estabelecer diálogos entre artistas, pesquisadores, estudiosos de teatro. Como o fórum deste ano dialoga com a mostra? Houve um alinhamento entre eles?

O Fernando Mencarelli (curador do Fórum) é um gênio. A curadoria do Fórum é brilhante. Consegue articular uma pauta contemporânea, com as questões que realmente importam – as essenciais, eternas. A fermentação cultural que estamos vivendo neste momento no país – as manifestações que pipocaram de ponta a ponta são a prova disso – está inteiramente refletida no fórum. Veja a pauta: a perspectiva ameríndia, as lutas sociais e a educação. Tem uma pauta mais urgente do que essa? Estamos vivendo o genocídio das etnias ameríndias, de afrodescendentes e de muitas outras. A diversidade diminui dia a dia e o que não se percebe é que a cada dia ficamos mais pobres. Quem, além da educação, pode promover uma verdadeira transformação nesse sentido? Precisamos urgentemente rever, repensar nossos paradigmas filosóficos. Sem essa revisão profunda, nossa política educacional talvez perdure perpetuando o fascismo e o terror. Nesse sentido, creio que o perspectivismo ameríndio abre uma fissura na possibilidade de ampliarmos o campo de perspectivas outras, de modos de ver e pensar o mundo e que talvez tenham muito a contribuir para esse momento sombrio. O Ecum completa 16 anos de vida. Fale sobre sua importância?

O Ecum é um dos projetos mais vigorosos e potentes que conheço. Isso se deve em sua maior parte à excelência dos profissionais e mestres que atuam e atuaram ao longo de todos esses anos nessa trincheira. Essa trajetória foi idealizada e liderada por um mineiro: Guilherme Marques. Isso não é pouco. São quase 20 anos de um trabalho enorme, ético, sagrado. O Guilherme sempre diz que o ouro do Ecum é a sua equipe. Concordo plenamente. O verdadeiro ouro é o humano.

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