Teocracia e ditadura, os grandes inimigos da democracia

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Tivemos tantos presidentes e governadores fantoches que a simples ameaça de mais um me deixa apavorado
Intervenção sobre espantalhos, desenhos de Fausto Prats
Tivemos tantos presidentes e governadores fantoches que a simples ameaça de mais um me deixa apavorado

A Idade Média é conhecida como o período de maior obscurantismo da história. Não havia, exceto na turbulência geopolítica do início, pensamento individual. Dona de corpos, corações e mentes, a Igreja Católica chegou a possuir dois terços do território europeu (sendo a posse da terra a maior riqueza disponível). Entre os horrores dessa época sombria destacou-se a Inquisição, instrumento de controle social e pressão política. Bastava uma denúncia anônima para que qualquer pessoa (geralmente velhas analfabetas e judeus) fosse levada ao tribunal da “Santa Inquisição” em vários países da Europa, especialmente na Espanha. Explica-se a escolha das vítimas: as “bruxas” serviam para intimidar o restante da população, pois, se condenadas, terminavam seus dias estorricadas em fogueiras armadas em praça pública, diante de multidões aterrorizadas. Os judeus, muitos deles ricos, serviam ainda para outro propósito: aumentar a fortuna de bispos, cardeais e papas. Nos tribunais, os acusados eram submetidos a interrogatórios severos por inquisidores astutos e experimentados, que buscavam a todo custo extrair confissões dos interrogados, quase sempre acusados de heresia ou de pacto com o diabo. Não confessando, sofriam torturas pavorosamente requintadas. Enlouquecidos de dor, terminavam por admitir todas as acusações. Alguns historiadores alegam que os queimados nas fogueiras foram minoria, mas a ideia era manter a dominação e, nisso, a Inquisição foi terrivelmente eficaz. SADISMO SEM FIM Não precisamos ir longe para verificar que a tortura física e psicológica está indissoluvelmente ligada à personalidade humana. Não à personalidade de todos, felizmente. Nem mesmo à da maioria. Mas existe uma parcela nada desprezível de homens e mulheres que sente prazer quando inflige sofrimento a outros. Será isso que explica por que todos os regimes autoritários de todos os tempos duraram tanto? Talvez. Não fossem os torturadores – fiéis cumpridores de ordens –, os Estados de exceção não atravessariam décadas. Só no século XX, eles proliferaram na Rússia stalinista, na Alemanha nazista, na Itália fascista, na Espanha franquista, no Portugal salazarista e – aqui embaixo – no Brasil, no Chile e na Argentina, entre outros. Quando se estuda, por exemplo, o horror dos campos de extermínio de judeus, impressiona a quantidade de rapazes e moças, pessoas que fora dali seriam pais, filhos e irmãos normais e amorosos, que se tornaram feras sanguinárias por obedecerem a “ordens superiores”, que lhes dava o direito de torturar e matar, sem o menor risco de punição. Nesses casos, sadismo e impunidade são como irmãos siameses. A violência das polícias do Rio e de São Paulo, diariamente exposta nos noticiários, corrobora meus argumentos. Para alguns, tornar-se membro de uma corporação policial é o caminho mais fácil para adquirir o direito de torturar e matar, com prazer ou sem ele. DE BOAS INTENÇÕES O INFERNO ESTÁ CHEIO Marina Silva é um repositório de boas intenções. Aliás, segundo ela mesma, seu objetivo é governar com “os bons”. Além do primarismo que revela essa categorização estranha, ou seja, “os bons”, já que ninguém gostaria de governar com “os maus”, o conceito é tão subjetivo que despenca na pirambeira da vacuidade. Serei mais claro: todas as vezes que um governo autoritário se instalou num país, quem mais se beneficiou, além dos sádicos, foram os oportunistas e os predadores. Oportunistas são fáceis de identificar: basta ver a quantidade de deputados que migram de um partido de aluguel para outro. Predadores são os que não têm qualquer escrúpulo em trair, mentir e roubar, lutando ferozmente para subir “na vida”, custe o que custar. Seu regime político ideal são as ditaduras, em que proliferam como moscas em carniça. Oportunistas e predadores não têm partido, apenas objetivos. Estão em toda parte e pertencem a todas as classes sociais. Basta, porém, que um Estado de exceção se estabeleça para que, imediatamente, se tornem colaboradores e aproveitadores. O PASSADO QUE NÃO MORRE Quem viveu a ditadura militar me compreenderá. Muitos de nós, para driblar a censura, líamos jornais direitistas, pois neles a censura era mais frouxa e certas notícias passavam. Foi nessas páginas que soubemos dos assassinatos de Wladimir Herzog, Carlos Lamarca, José Carlos da Mata Machado e tantos outros militantes de esquerda, noticiados nas entrelinhas, mas que nós, atentos, sabíamos decifrar. Não por coincidência, se consolidaram na época dois dos grupos que ainda hoje dominam a informação de massa no país: Globo e Abril. Foram eles, principalmente, que deram suporte à direita então triunfante, e continuam hoje na mesma trincheira, lutando ferozmente para não perder seu poder e sua influência. O FUTURO QUE ME APAVORA O leitor Maurício Azeredo Dias Costa publicou longo comentário sobre minha crônica de domingo passado. Concordo com algumas colocações suas, quando distingue Lutero de Calvino ou contrapõe a ética do trabalho e do ascetismo (protestante) à ética da pobreza e da caridade (católica), o que nas origens era verdade. Mas não concordo quando se refere a uma “central de marketing da candidatura oficial. (...) Pautados pelos neogoebbels do PT...”. Confesso que não vi maldade nessa afirmação, mas algo pior: uma opinião apressada e superficial sobre um velho escritor, que jamais ocupou cargo público e nunca foi filiado ao PT. Apenas, repito, vivi muito, e gosto de pensar histórica e sociologicamente. Nada tenho contra Marina Silva. Simplesmente me apavora imaginar o fantoche em que se transformará, caso eleita. Sem experiência administrativa e sem programa de governo, será inevitavelmente dirigida e manipulada pela aristocracia paulista, pelos banqueiros que a cercam e pelos mais radicais e totalitários entre seus companheiros de militância religiosa: os neopentecostais.

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