Neoclássicas

Trio: Denise Del Vecchio, Miwa Yanagizawa e Letícia Sabatella estreiam em BH

iG Minas Gerais | Giselle Ferreira |

Cantora: Letícia Sabatella solta a voz em ato que abre a trilogia de Antígona, Electra e Medeia
VICTOR HUGO CECATTO/DIVULGAÇÃO
Cantora: Letícia Sabatella solta a voz em ato que abre a trilogia de Antígona, Electra e Medeia

 

Quando todo mundo diz sim, ela diz não. O vozeirão e o lamento contrariam a guerra, a opressão e todas as tendências de desumanização da sociedade. Antígona encara o poder e a intolerância a ponto de tentar fazer justiça com as próprias mãos e acaba soterrada viva na cova que preparou para salvar a honra do irmão. Enquanto Antígona, filha de Édipo, sacrifica a própria vida por virtude, Electra e Medeia ora matam, ora mandam matar.    Fugas, traições, lutas, assassinatos, matricídios e outros conflitos pelo poder são temas que permeiam as tragédias de Antígona, Electra e Medeia, que o diretor Guilherme Leme Garcia adapta num mesmo espetáculo, “Trágica.3”, que cumpre temporada de três semanas no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-BH), a partir da próxima sexta (3).   A belo-horizontina Letícia Sabatella é quem abre a trilogia de monólogos. Interpretando Antígona, a atriz solta a voz para bradar por justiça e lamentar as mazelas de sua família e dos cidadãos de Tebas. Na montagem, Guilherme Leme lustra com verniz contemporâneo os textos clássicos e casa os lamentos de Sabatella com a música experimental e eletrônica que Marcelo H e Fernando Alves Pinto (casado com Letícia) operam ao vivo. Marcelo e Fernando, quando não estão fazendo música com um serrote, também integram o elenco como Hêmon e Orestes.   “O Gui me permitiu um trabalho em teatro mais autoral e performático através da Antígona. É um texto incrivelmente belo e poético, que trouxe muita musicalidade para a cena. O texto do Sófocles sempre propõe um questionamento do poder opressor de cada tempo. É um clássico, eterno, atemporal. Daí veio o som, o vozeirão contrário à toda a opressão. Respeitei sempre esse sentimento primordial, essa emoção, que gera o ritmo, o som, a música no piano, na voz, a fala nascendo da música, o gesto da fala. A oposição ao estabelecido autoritário através do mais profundo sentimento de humanidade e compaixão”, comenta Letícia, sobre a personagem que ajudou a formatar.   Miwa Yanagizawa e Denise Del Vecchio completam o time de heroínas, no papel de Electra e Medeia, respectivamente. As três, segundo Guilherme, foram fundamentais no processo de costura da dramaturgia e na construção das desventuradas mulheres de Sófocles e Eurípides, que os textos de Heiner Müller (Medea), Caio de Andrade (Antygona.2) e Francisco Carlos (Electra.3) adaptaram aos tempos modernos.    “Cada uma trouxe sua parte e a montagem poderia ser entendida também como três performances. A Letícia trouxe seu lado de cantora e compositora. Miwa veio com um trabalho corporal muito forte e isso fez a nossa Electra. Denise vem com sua autoridade cênica, com o seu dom da palavra, que é a característica belíssima do trabalho dela”, conclui a respeito da atriz que está entre as cinco indicações que o espetáculo teve ao 27º Prêmio Shell (direção, figurino, iluminação e música completam a lista).    Eternas   Não que os dramas precisassem de releituras que as atualizassem, conforme defende o diretor. Para ele, elas não só têm lições a nos ensinar hoje, como “têm desde sempre e para sempre. A tragédia grega não tem tempo. É o berço da nossa civilização e dramaturgia. Ela é de todos os tempos”, diz, lembrando que tomou gosto pelo gênero quando atuou em “Medeia Material” ao lado de Vera Holtz, na década de 1990. Ele montou, mais tarde, “RockAntygona”, que trazia Miwa como protagonista na montagem que se assemelhava a um show de rock.    Essa nova incursão ao universo trágico procura provocar na plateia a mesma energia e adrenalina, valendo-se das dobradinhas que faz com as artes plásticas, a música e a performance. Com estética visual simplista e geométrica inspirada na obra do norte-americano James Turrell, a direção deixa a cargo do público a distinção entre atrizes e personagens. “Meu trabalho é sempre calcado nesses imbricamentos. Sempre trago um movimento das demais artes porque me interessa muito essa conversa. Nesse caso, é a música que pontua e amarra os três atos. As heroínas não são encarnadas pelas atrizes, mas apenas as atravessam. Existe uma linha tênue, um fio bem fininho entre atriz e personagem. Você pode enxergar Antígona em cena ou Letícia declamando versos”.    “A Antígona é próxima a nós, é a consciência inquebrável, sem concessões, verdade e coerência exercidas integralmente. É um direito de ser o que se é, custe o que custar! Liberdade extrema! Aproveito cada segundo em cena como se tivesse asas pra voar! E me expresso com meu máximo repertório de emoção, coração, voz, música, me jogo como se enfrentasse um tsunami de peito aberto”, confessa, Letícia, apaixonadamente, como pede a tragédia.    Trágica.3    Dir. Guilherme Leme Garcia Com Denise Del Vecchio, Letícia Sabatella, Miwa Yanagizawa, Fernando Alves Pinto e Marcello H Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, 3431-9400). De 3 (sexta) a 26 de outubro. Sextas, sábados e domingos, às 20h. R$ 10 (inteira).

 

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