Quilombolas tentam reabrir estrada, são impedidos e recebem ameaças

Clima ficou tenso após mutirão para reabrir estrada histórica, que foi fechada por fazendeiros há anos e faz falta no dia-a-dia das 30 famílias da comunidade

iG Minas Gerais | JOSÉ VÍTOR CAMILO |

Cerca de 30 famílias necessitam da estrada, que estaria em território da União, e foi fechada pelos fazendeiros
CONSELHO PASTORAL DOS PESCADORES/DIVULGAÇÃO
Cerca de 30 famílias necessitam da estrada, que estaria em território da União, e foi fechada pelos fazendeiros

As cerca de 30 famílias da comunidade quilombola pesqueira/vazanteira de Caraíbas, localizada na cidade de Pedras de Maria da Cruz, no Norte do Estado, estão amedrontadas desde o último domingo (21), quando tentaram reabrir uma estrada histórica que liga a comunidade à cidade e que foi fechada por fazendeiros da região há cerca de 10 anos. Desde que realizaram um mutirão para liberar o caminho, os moradores foram impedidos, tiveram todo o trabalho feito destruído por funcionários da fazenda e até mesmo receberam ameaças de morte.

O morador da comunidade e membro do movimento dos pescadores João Batista Antônio da Silva, de 40 anos, conta que a seca que vem castigando o Estado foi um dos principais motivos para a reabertura da estrada. "O nosso transporte estava sendo feito pelo rio São Francisco, mas com a seca está ficando complicado de buscar água, alimento e até mesmo mandar os meninos para a escola. A passagem pela estrada é muito mais prática, mas os fazendeiros fecharam com cerca e cresceu muito mato", explica.

Somente neste ano as crianças perderam mais de 60 dias letivos por conta de defeitos na lancha escolar que os levava para a cidade. "E na segunda-feira (22) ela não veio de novo. Com essas dificuldades para irmos até a cidade, nós nos reunimos e decidimos que iríamos reabrir a estrada. O mutirão tinha cerca de 100 pessoas, entre homens, mulheres e crianças. Mas enquanto estávamos no meio do trabalho chegou o gerente da fazenda acompanhado com seis policiais", lembrou.

Segundo o relato do morador, os policiais chegaram apontando armas para eles e mandando que as ferramentas usadas no mutirão fossem colocadas no chão. "Falamos que a gente era da comunidade quilombola e que não estávamos invadindo terreno de ninguém, que a estrada tinha mais de 200 anos e que precisávamos dela. Mas ainda assim eles nos forçaram a passar os nomes para colocar no Boletim de Ocorrência (BO)", denunciou Silva.

Na segunda-feira os quilombolas deram continuidade ao trabalho de reconstrução, entretanto, acabaram descobrindo que funcionários da fazenda já estavam destruindo o mata-burro construído por eles e desistiram do mutirão. "Foi então que na terça-feira (23) recebemos um recado passado para um pescador, que foi na casa do meu pai e disse para ficarmos atentos, pois duas pessoas da comunidade estariam marcadas para morrer. Desde então estamos com medo de sair daqui até mesmo para fazer o BO de ameaça, pois podemos sofrer uma emboscada dos funcionários da fazenda no caminho pela estrada", acusou.

Procurado, o sargento Farley Azevedo, comandante da Polícia Militar (PM) da cidade, disse que foram acionados pelo fazendeiro que alegou que algumas pessoas estavam invadindo a terra dele. "Diante disso comparecemos ao local para verificar se realmente se tratava de invasão. Foi aí que fomos informados pelos quilombolas que era a questão da estrada e, como não haviam barracas, mas sim apenas ferramentas, não tinha como configurar como invasão", disse o militar.

Apesar disso, como os moradores arrancaram algumas árvores que cresciam na estrada, a PM fez um BO dos crimes ambientais cometidos durante a reconstrução da estrada. "A PM não tem como provar se a terra é do fazendeiro ou não, a gente fez o BO e a Justiça com certeza vai marcar alguma audiência para tratar do assunto. Mas enquanto isso queremos manter o diálogo com a comunidade. Se eles foram ameaçados, podem entrar em contato com a gente para fazer a ocorrência", garantiu o comandante. 

Pastoral

Desde que recebeu a denúncia da atuação da PM no domingo, o Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) vem acompanhando o caso. Segundo o órgão, a estrada fica no território da União, apesar dos fazendeiros terem colocado cercas e considerarem como território deles. "O medo da nossa comunidade é que este conflito por uma coisa que é nosso direito termine em tragédia e os responsáveis não sejam responsabilizados, como aconteceu no massacre de Felisburgo", defendeu Silva. 

A irmã Neusa Francisca do Nascimento, de 46 anos, é membro do CPP e esteve na comunidade nesta quinta-feira (25). "Eles continuam na mesma, com medo. O povo da fazenda destruiu tudo que o mutirão fez e eles continuam com dificuldade para transitar para a cidade. A água do São Francisco não é boa para consumo humano nem em época de cheia e eles não tem como buscar água na cidade do jeito que está", falou.

Os pescadores de Caraíbas também estão passando por dificuldades para trazer dinheiro para suas famílias. "Quando conseguem pegar é em médica 5 kg, que conseguem vender por R$ 45. O problema é que do jeito que está eles precisam gastar R$ 30 para chegar até a cidade e vendê-lo lucrando muito pouco. Essa estrada é de extrema importância para a sobrevivência dessa comunidade histórica", defendeu a irmã. 

Ainda segundo a CPP, aconteceu na manhã desta sexta-feira (26) uma reunião emergencial na Procuradoria Federal de Montes Claros, também no Norte do Estado, para tratar sobre o conflito entre a comunidade de Caraíbas e o fazendeiro. O órgão foi procurado, porém, até o momento não se manifestou sobre o que ficou decidido durante o encontro.