O teatro essencial de Stoklos

Sesc Palladium recebe três espetáculos, masterclass e oficina de uma das artistas mais importantes do cena teatral

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Solitária. Stoklos constrói uma trajetória de espetáculos solo que potencializam suas próprias características: voz, corpo e intelecto
Thais Stoklos
Solitária. Stoklos constrói uma trajetória de espetáculos solo que potencializam suas próprias características: voz, corpo e intelecto

Acreditar que o indivíduo tem mais para dizer de si, de seus iguais e de seu tempo é o que a motiva a multiartista Denise Stoklos e seu Teatro Essencial. A atriz desembarca em Belo Horizonte com uma trinca de espetáculos na bagagem e para ministrar masterclass e workshop. A vinda da artista à cidade faz parte do projeto Off Cena, do Sesc Palladium.

“Eu não me visto do Padre Antônio Vieira. Não coloco uma batina e faço um trejeito, uma voz para aquele personagem. O que caracteriza o Teatro Essencial é a maneira como o artista se relaciona com esse discurso vivo, com suas potências: corpo, voz e intelecto”, comenta Stoklos.

A artista trará três espetáculos solos, característica de seu trabalho. Hoje, “Carta ao Pai”, espetáculo que estreou neste ano; sábado, “Vozes Dissonantes”, de 2000, e domingo é a vez de “Mary Stuart”, peça de 1987, que inaugura o Teatro Essencial. “Esses espetáculos cobrem um tempo bastante grande e são três abordagens bem diferentes para minha linha de trabalho, mas todos eles dizem respeito a nossa vida em sociedade, esse aspecto sociológico de viver na natureza, que é igual para todos”, filosofa.

Em 1999, o Teatro Essencial preconizado pela artista foi reconhecido pela revista periódica “The Drama Review”, publicada pelo Departamento de Estudos da Performance da New York University (NYU) – um dos mais importantes centros de estudos do segmento no mundo – como um gênero específico de fazer teatro. Stoklos foi convidada a apresentar seu modus operandi in loco, em Nova York.

Em “Mary Stuart”, Stoklos volta a um tempo de descobertas. “Da Vinci disseca cadáveres para descobrir o que há dentro do homem, Gutemberg inaugura a imprensa, Shakespeare é precursor ao falar sobre a espiritualidade do homem, sua alma, e duas mulheres estão no poder: Mary Stuart, condenada à morte, e sua prima, Elizabeth I”, contextualiza. “Duas mulheres estão no poder e são destruídas por ele. É uma perfeita metáfora para nós, nesses tempos em que se tem liberdade, mas é preciso se submeter às convenções impostas de fora. Não é tão distante assim”, completa.

Em “Vozes Dissonantes” se vê os rebeldes brasileiros que levantaram suas vozes através da história, com vistas a atitudes de transformação. E em sua produção mais recente, “Carta ao Pai”, Stoklos se inspira em Kafka para fazer um paralelo com o Brasil. “Busco essa coisa que não é a ficção. Eu não preciso me vestir de Kafka, porque o filho espancado é o povo brasileiro e quem o espanca é o Estado, nossos governos. E eu falo de nosso povo mais primário: o jeca, o caipira, que está completamente desprovido, esquecido”, comenta.

Apesar de passados quase 30 anos desde a estreia de “Mary Stuart” e outros 14 de “Vozes Dissonantes”, a artista ainda crê na sua potência e por acreditar que os três trabalhos que chegam a Belo Horizonte trazem em si uma atemporalidade que, segundo ela, são pertinentes a “alguém na Argentina ou na China. “O teatro na Grécia era prescrito como receita médica. O médico recomendava ‘Antígona’ para o paciente que precisasse de uma história sobre a justiça, por exemplo. O teatro fala a respeito da nossa vida e essa busca por amor e liberdade, que é comum a todos”, sintetiza Stoklos.

Oficina. Além dos espetáculos, ela oferece o workshop sobre o Teatro Essencial para atores profissionais, na segunda-feira (inscrições encerradas). Há muito tempo, ela não ministrava esse tipo de trabalho. Tendo seu trabalho vastamente pesquisado em dissertações e teses acadêmicas e também servindo de parâmetro para vários artistas, Stoklos fica feliz com essa “reprodução” do Teatro Essencial. “Ele pode ser feito por qualquer artista, não necessariamente em trabalhos com um intérprete, e ele é único porque cada um tem características próprias”, finaliza.

Programação

“Carta ao Pai”

Hoje, às 21h

“Vozes Dissonantes” Amanhã, às 21h

“Mary Stuart”

Domingo, às 19h

Seguida por masterclass com Denise Stoklos  Onde. Grande Teatro Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1.046, centro)

Ingressos. R$ 40 e R$ 20 (meia-entrada)

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