Você não tá legal

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Não tem dez dias que Drauzio Varella, o médico que eu gostaria de ter guardado na gaveta do criado-mudo, postou no seu canal no YouTube uma aulinha simples e definitiva sobre orientação sexual. O vídeo de pouco mais de 3 minutos começa com a frase “A homossexualidade é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados” (aplausos, por favor) e é recheado por outros clarões como “Você pode controlar o comportamento, mas você não controla o desejo”. E o final é sensacional. Com o mesmo tom de voz que nos acostumamos em suas aparições no “Fantástico”, ele me solta essa: “Que diferença faz para você, para a sua vida pessoal, se seu vizinho dorme com outro homem, se a sua vizinha é apaixonada pela colega de escritório? Se faz diferença, procura um psiquiatra, você não tá legal”. Quem me conhece de perto sabe como esta é uma questão importante pra mim. Quem me acompanha por aqui, também. É das poucas coisas que me fazem entrar em uma missão de convencimento. E já peguei emprestado os argumentos do Drauzio em pelo menos três ocasiões desde que o vídeo foi postado. Mas o que pretendo adotar mesmo, a partir de já, é o “procura um psiquiatra, você não tá legal”, que se encaixa tão bem nestes tempos em que intolerância, desrespeito e preconceito encontram cama quente em gestos, palavras, atos e omissões. Sendo assim, o próximo que disser que quem não aceita que um negro seja chamado de macaco não possui senso de humor, que o racismo no estádio é uma explosão natural ou só o calor do jogo, que a palavra que se escolhe para agredir alguém é meramente casual vai ter como resposta um “procura um psiquiatra, você não tá legal”. O mesmo vai escutar quem alimenta uma gigante dificuldade de conviver com opiniões diferentes ou que não servem de palanque para as próprias convicções. Quem ao menor sinal de contrariedade joga no outro toda a sua fúria, preferindo aniquilar o diálogo em vez de ampliar o debate. Ou ainda os que acreditam piamente que o seu voto é melhor que o do coleguinha do lado. É possível que sobre até para quem faz questão de alimentar a insatisfação das mulheres com sua imagem, de reforçar que só é possível uma moça se sentir adequada, realizada e atendida nas suas necessidades afetivas se suas medidas obedecerem um padrão ideal, vendido como o único capaz de propiciar alegria e prazer. E se tem alguém que não percebe o tamanho desse problema no Brasil, fruto da ignorância e pai de tanta violência, já sabe...

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