Somos todos carismáticos quando a vida nos chama para brilhar

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DUKE
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Carisma, carma, Krishna, Cristo, crisma e caritas possuem a mesma raiz sânscrita: “kri” ou “kir”. Ela significa a energia cósmica que tudo acrisola e vitaliza, tudo penetra e rejuvenesce, força que faz atrair e fascinar os espíritos. A pessoa não possui carisma, é possuída por ele. O carisma é algo surpreendente. Está nos seres humanos, mas não vem deles. Vem de algo mais alto e superior. Os antropólogos introduziram uma palavra tirada da cultura de Melanésia: “mana”. A personalidade mana irradia um poder extraordinário e irresistível que, sem violência, se impõe aos demais. Atrai, entusiasma, fascina, arrasta. É o equivalente a carisma na nossa tradição ocidental. Quem são os carismáticos? No fundo, todos. A ninguém é negada essa força cósmica de presença e de atração. Todos carregamos algo das estrelas de onde viemos. A vida de cada um é chamada para brilhar, no dizer de um cantor. É carismática de uma forma ou de outra. Alguns são Sol, outros, Lua. Ninguém está fora da luz, própria ou refletida. Enfim, estamos todos na luz para brilhar. Mas há carismáticos e carismáticos. Há alguns nos quais essa força de irradiação implode e explode. Pode-se fazer desfilar todos os bispos e cardeais diante dos fiéis reunidos. Pode haver figuras impressionantes em inteligência, capacidade de administração, zelo apostólico. Mas o olhar de todos se fixava sobre dom Helder Câmara enquanto estava ainda entre nós. Porque era portador eminente de carisma. Muitos podem falar. E há bons oradores que atraem a atenção. Mas deixem o bispo emérito de São Felix do Araguaia, dom Pedro Casaldáliga, falar. A voz é rouca, e às vezes quase desaparece, mas nela há tanta força e tanto convencimento que as pessoas ficam boquiabertas. É a irrupção do carisma que faz um bispo frágil e fraco parecer um gigante. Há políticos hábeis e grandes administradores. A maioria maneja o verbo com maestria. Mas façam Lula subir à tribuna, diante das multidões. Começa baixinho, assume um tom narrativo, vai buscando a trilha melhor para a comunicação. E lentamente adquire força, as conexões surpreendentes irrompem, a argumentação ganha seu travejamento adequado, o volume de voz alcança altura, os olhos se incendeiam, os gestos ondulam a fala. Num momento, o corpo inteiro é comunicação, argumentação e comunhão com a multidão, que de barulhenta passa a silenciosa, e de silenciosa a petrificada, para, num momento culminante, irromper em gritos e aplausos de entusiasmo. É o carisma fazendo sua irrupção. Pouco importa a opinião que pudermos fazer de seus oito anos de governo. Não se pode negar a presença do carisma de Lula. Não sem razão, Max Weber, o grande estudioso do poder carismático, chamou-o de “estado nascente”. O carisma como que faz nascer, cada vez que irrompe, a criação do mundo na pessoa carismática, ou personalidade mana. A função dos carismáticos é a de ser parteiros do carisma latente dentro das pessoas. Sua missão não é dominá-los com seu brilho nem seduzi-los para que os sigam cegamente, mas despertá-los da letargia do cotidiano. E, despertos, descobrirem que o cotidiano, em sua platitude, guarda segredos, novidades, energias ocultas que sempre podem acordar e conferir um novo sentido e brilho à vida, a nossa curta passagem por este universo. Que cada qual descubra a estrela que deixou sua luz e seu rastro dentro dele. E se for fiel à luz, brilhará, e outros o perceberão com entusiasmo.

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