Células multiplicadoras

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Sempre rolou uma conversa por aí de que os seres humanos só usam 10% do potencial do cérebro para desenvolver suas habilidades cognitivas. Alguns acreditam nessa verdade, outros provam que é um mito descabido. Mas o melhor é que o diretor Luc Besson, acostumado a filmes de ação, como “Nikita”, “Busca Implacável” e “O Quinto Elemento”, trouxe a premissa à tona e deu a Scarlet Johansson o poder de expandir esse conhecimento sobre a própria mente e o corpo, transformando-a em outra super-heroína, depois da ousada Viúva Negra, da Marvel. No filme “Lucy”, a protagonista é enganada pelo parceiro charlatão, é obrigada a entregar uma pasta para Mr. Jang (Min-sik Choi), o chefão do tráfico local, e ainda cai em outra armadilha. Em uma tensa sequência em que Lucy é encurralada e é coagida a carregar dentro de seu abdômen um dos pacotes da droga CPH4, que estava na tal pasta, ela é espancada pelos carcereiros, e a substância se espalha pelo seu corpo. A overdose ativa seu cérebro para além dos limites e, logo, a loira passa de periguete para inteligência pura, mostrando várias vezes na telona a sequência de percentuais atingidos por ela. Mas o que acontece quando ela atingir os 100%? É aonde o filme vai chegar, mas, para isso, tem muita cena de ação, uma louca e inimaginável ficção, desafiando tanto as regras da ciência que, se você não entrar no jogo do diretor, vai perder o ingresso do cinema.

Como um contraponto intelectual, o professor Norman (Morgan Freeman), especialista em faculdades mentais que explica a um grupo de pesquisadores e alunos o que poderia acontecer se o ser humano desenvolvesse o cérebro a níveis bem elevados, surge como a possível saída para a protagonista resolver seus problemas. Em fuga e à procura de Norman, Lucy se transforma num ser superpoderoso, capaz de comandar tudo por meio da mente, mas não vira uma justiceira, nem quer acabar com o tráfico de drogas ou com os vilões. Ela, apenas, vai usar de todo o seu novo conhecimento para absorver o que existir dessa droga sintética e fazer um experimento extremo em si mesma.

E é esse conhecimento o mais fantasioso e encantador. Em certa parte do filme, Lucy questiona o professor: por que e para que aprendemos mais e mais na vida? Para termos mais conhecimento? Para onde vamos levar isso tudo se um dia vamos morrer? O discurso dele é que continuemos nessa busca incessante para ganharmos mais tempo e, assim, podermos saber, conhecer, compreender, entender, viver mais! Pra quê? Para que, cada um de nós, deixe uma contribuição de conhecimento para o mundo.

A nossa vida é feita de escolhas, de muitas escolhas. A célula, como é demonstrado no filme, só tem duas: ser imortal – no caso do câncer, quando ela se torna autônoma – ou se reproduzir. Uma célula que se torna cancerígena tenta atravessar o tempo sozinha. Já a célula que se reproduz se perpetua por meio das vizinhas, a fantástica magia de se viver em sociedade. Nunca tinha visto a vida das células sob essa ótica. E é essa escolha celular, de ser ou não ser tão generoso, que temos que fazer em nossa sociedade – uma dúvida constante entre o que chamamos de “bem” e de “mal”.

Lucy, uma mulher superpoderosa que está querendo entender as mudanças em seu corpo, não tem mais tempo para o impasse entre a imortalidade e a reprodução. Nós, meros mortais, que já estamos cansados de saber como o nosso corpo funciona, só temos um caminho a seguir, entre os tais lados do bem e do mal: o de aproveitar esse mínimo tempo de existência que nos é dado e nos multiplicarmos feito células para darmos conta do recado, que é viver para deixar um legado. 

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