Uma justiça chamada Denzel

Filme reúne Denzel Washington e o diretor de “Dia de Treinamento”

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Dupla. Laço emocional construído por Washington e Moretz é o estopim da trama de “O Protetor”
Scott Garfield
Dupla. Laço emocional construído por Washington e Moretz é o estopim da trama de “O Protetor”

Denzel Washington é um dos últimos exemplares de uma espécie em extinção. Um daqueles atores que, quando entra em cena, comanda a tela. Ele não interpreta simplesmente o que está no roteiro, ou o que o diretor manda. Mas sim o personagem que ele cria, num tempo próprio que rege toda a encenação ao seu redor.

E Washington não faz isso porque é um astro, ou por falta de versatilidade. Ele faz o que sabe ser melhor para a história que o filme quer contar. É por isso que toda vez que o ator aparece em “O Protetor”, adaptação da série “The Equalizer” dos anos 1980 que estreia hoje, ele faz o longa cantar. Nos demais momentos, o filme é simplesmente um thriller de ação sem nada de novo.

Washington é Robert McCall, vendedor de uma loja de materiais de construção. Sem conseguir dormir, ele passa as noites lendo livros em uma lanchonete, onde conhece a prostituta Teri (Chloë Grace Moretz, na sua versão de Jodie Foster em “Taxi Driver”). Quando ela é espancada por seus cafetões e vai parar no hospital, McCall decide “fazer algo a respeito” e acaba iniciando uma guerra de um homem só contra a máfia russa.

“Fazer algo a respeito” para o protagonista significa, primeiro, fazer o que sua mãe ensinou e pedir “por favor”. Quando isso não funciona, ele parte para o método Charles Bronson e desce a porrada. A facilidade jasonbourneana com que McCall faz isso gera a grande pergunta do longa: “Quem é você?”. E o grande acerto da produção dirigida por Antoine Fuqua é nunca parar para contar isso – optando por mostrar a resposta nas ações do protagonista.

Por sinal, quem for ao cinema procurando por ação ininterrupta pode se decepcionar. Em comparação com os longas atuais, que produzem uma sequência de ação atrás da outra para tapar os buracos da falta de história, “O Protetor” só parte para a ignorância quando necessário. Porque McCall passa a maior parte do tempo pensando e só age quando tem certeza do resultado que irá obter. E esse rigor matemático do protagonista se reflete na direção de Fuqua, que equilibra longas calmarias com momentos rápidos e intensos de extrema violência.

fragilidade. O maior erro da produção é que uma dessas calmarias é um bom tempo gasto no início do segundo ato para elaborar a trama mafiosa. É um momento em que Washington quase sai de cena, e “O Protetor” se torna um filme policial bobo que você já viu mil vezes. O pecado – pago no final do longa, com a duração de mais de 2h que pode afetar sua performance comercial – fica claro em clichês como o plano dos pés à cabeça para mostrar as tatuagens do mafioso russo mauzão. A imagem só serve para lembrar como David Cronenberg já contou essa mesma história em “Senhores do Crime” – e melhor.

Que esse capanga seja um poço infinito de sadismo e obstinação, e ainda assim nunca chegue a provocar uma gota extra de suor em McCall, é o grande risco que “O Protetor” corre. O protagonista é daqueles justiceiros implacáveis, sempre um passo a frente de seus inimigos. E o responsável por fazer com que ele se torne um ser humano identificável, e não um super-herói vigilante e de moral questionável, é Washington. Com sua atuação quase silenciosa, sem frases de efeito ou piadinhas triunfais, ele constrói um homem que faz o que faz porque ninguém mais quer fazer, e não por ódio ou vingança, como os trabalhos recentes de Liam Neeson.

O ator empresta seu talento e carisma ao personagem, e não é por acaso que os melhores momentos do filme são as interações entre McCall e Teri no início. Mesmo com diálogos banais e referências literárias óbvias, Washington e Moretz constroem um laço emocional autêntico que faz falta quando ela some do longa. É nisso que Denzel está interessado. Ao contrário de Tom Cruise, ele não quer provar que, aos 50 anos, consegue correr e bater em um bando de moleque. As cenas de ação são ossos do ofício. Washington está ali para atuar.

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