Homem, cidade e natureza

Cantora mineira lança “Mineral” hoje à noite, no Teatro Bradesco, em uma reflexão entre a natureza e o ser humano

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Reflexões. Após mudança para o Rio, Raquel Coutinho se inspirou pela paisagem carioca para compor seu segundo disco autoral
João Bertholini
Reflexões. Após mudança para o Rio, Raquel Coutinho se inspirou pela paisagem carioca para compor seu segundo disco autoral

No dia 27 de dezembro de 2013, a cantora belo-horizontina Raquel Coutinho, 39, deixou sua terra natal para se mudar de mala e cuia para o Rio de Janeiro em busca de novos ares e inspiração. Quase dez meses depois, ela apresenta agora o fruto dessa espécie de metamorfose pessoal e artística trazida pelo clima da Cidade Maravilhosa. “Mineral” (Casa de Besouro), que ela estreia o show hoje à noite, no Teatro Bradesco, discute a relação entre o homem, a natureza e a cidade longe de pieguismos ecologicamente corretos, explorando letras originais e grooves sustentados por tambores mineiros e efeitos eletrônicos.

A cantora lembra que, logo de cara, ao entrar em seu apartamento na rua Paissandú, no bairro do Flamengo, ela teve o insight do que viria a ser o segundo disco da carreira. “Minha janela dava para um estacionamento, e na cobertura do estacionamento tinham árvores do tipo castanheiras nascendo no meio do concreto – árvores gigantes, entende? Aí eu saia de casa num trânsito absurdo e me deparava com pedras também gigantescas no meio da cidade, onde brotavam árvores, casas, túneis, várias coisas. Como um equilíbrio entre natureza e cidade”, explica.

Daí para começar a escrever as nove letras autorais do disco em cima dessas visões diárias foi um pulo. Se no primeiro disco, “Olho D’Água” (2009, Casa de Besouro), o guitarrista Maurício Negão, – que tem vasta história ao lado de Frejat, Planet Hemp e Ney Matogrosso – ficou por conta apenas das guitarras densas de um álbum composto inteiramente na Serra do Cipó, desta vez o guitarrista produziu todas as canções de “Mineral”. “A gente começou a compor junto, como ele mora no Rio, foi fácil e gostoso. Ele entendeu bem a pegada dos meus tambores e o que eu queria dizer sobre cidade, natureza e ser humano”, analisa a artista mineira.

Show. Integrante por mais de dez anos dos grupos percussivos de Maurício Tizumba e com forte ligação com tambores mineiros, Raquel Coutinho traz sua principal referência para o palco. No show, ela toca tambor de folia e patangome – instrumentos típicos do Congado –, unidos a pandeiros e sons de berimbau, além de distorções eletrônicas feitas com uma pedaleira, que transforma sua própria voz também em percussão. Nesse arranjo bem tupiniquim, ela canta conceitos que parecem desconstruir o óbvio ululante com uma poesia muito autoral, como na canção “Estranho Jardim” (“a cidade é meu estranho jardim / é o quintal de vento quente”). Ao mesmo tempo, a cantora flerta com o samba, como na canção “Hoje Pode Ser”, que é alimentada o tempo inteiro pela malemolência do pandeiro (“amanhã é novidade / amanhã não é certeza, é fé / de uma vida que é tão curta / amanhã já é saudade”).

A banda que acompanha Raquel Coutinho no palco é a mesma a excursionar com Ney Matogrosso no aclamado show “Atento Aos Sinais”. Assim, Marco Suzano (percussão e produção musical), Sacha Amback (teclado) e André Valle substituindo Maurício Negão nas guitarras são responsáveis por um som rotulado pela própria Raquel Coutinho como Música Universal Brasileira (MUB). “Eu costumo dizer que o meu baixo é o tambor – faço essa inversão musical no meu trabalho. Isso é minha essência. Mas não queria um toque de regionalismo simplista. Por isso a mistura de influências eletrônicas, de rock n’ roll e até samba equilibram a sonoridade da percussão mineira”.

Depois da capital mineira, Raquel Coutinho deverá seguir para São Paulo e Salvador, onde fará apresentações ainda sem data e local definidos.

Agenda

O QUE. Raquel Coutinho estreia show do disco “Mineral”

ONDE. Teatro Bradesco (rua da Bahia, 2.244, Lourdes)

QUANDO. Hoje, às 20h30

QUANTO. Os ingressos custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)

Gravações

Diversidade. “Mineral” ainda conta com participações dos músicos Sergio Pererê, Kiko Klaus e Hironaky. Todas as canções foram gravadas no estúdio SambaTown, na casa do percussionista Marco Suzano, no Rio de Janeiro, além do Camarada Estúdio, do compositor e produtor musical Kiko Klaus, em Belo Horizonte.

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