Espelho, espelho de Gal Costa

Cantora estreia show “Espelho D’água” na capital e prepara disco ao lado de Milton Nascimento, Criolo, Gil e Caetano

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Intimista. Em formato simples, acompanhada de guitarra e violão, Gal Costa canta clássicos de todas as épocas da carreira
AndreSchiliro
Intimista. Em formato simples, acompanhada de guitarra e violão, Gal Costa canta clássicos de todas as épocas da carreira

Uma tigresa fatal a todo vapor, dona de notas vocais de cristal e musa tropical. As diferentes fases de Gal Costa até rimam entre si. Mas reunir todas elas em um show só não é um poema dos mais óbvios e simples de se rabiscar. Talvez por isso, o show “Espelho D’água”, que a cantora baiana estreia no Palácio das Artes, amanhã à noite, tem a ousadia moderna de levar ao palco arranjos de guitarra e violão – e nada além – para passear por todas as fases da carreira da artista, em um dos melhores repertórios dos últimos tempos – que abrange desde o Tropicalismo dos anos 60, a transgressão latente dos anos 70, até a nova parceria com Marcelo Camelo.

Depois de abalar a crítica com “Recanto” (Universal Music), um disco inteiro de bases eletrônicas e produzido, escrito e arquitetado por Caetano Veloso, Gal Costa bebe na mesma fonte para compor o espetáculo “Espelho D’água”. No palco não há banda. Apenas o guitarrista e violonista Guilherme Monteiro, radicado em Nova York há mais de 10 anos e com forte influência da nata do jazz, que se alterna entre violões de nylon e guitarras semi-acústicas para arranjar todo o repertório da artista.

“‘Recanto’ é uma somatória de todas as Gals. A Gal transgressora, a Gal clássica. É um show intenso, que me arrebata. Fui convencida a levar essa ‘entidade’ para um novo show em formato voz e violão, só que agora de uma forma mais popular, com canções de total acesso ao público, que ficaram marcadas na minha voz com certeza”, analisa a artista.

Antes de estrear o espetáculo em São Paulo, em 1º de agosto deste ano, Gal Costa passou dois dias ensaiando as músicas em um estúdio de rock, na Vila Madelena. “Foi bom porque o show tem essa pegada de guitarra e violão e os técnicos de som eram todos garotos de 20 anos que pareciam querer ver Gal Costa fazendo rock puro”, brinca a cantora. O repertório de “Espelho D’água” é composto por 20 canções em média, e foi selecionado pela própria Gal Costa ao lado do jornalista paulistano Marcus Preto. “Ele juntou as capas de todos os meus discos, eu fui assinalando as que eu queria cantar e ele foi sugerindo o que pensava também”, completa a artista.

Em um cenário sombrio, de luz baixa e praticamente nenhuma decoração, Gal Costa revive a fase hippie e tropical, quando a juba avolumada se transformou em sua marca registrada. Após a abertura com “Caras e Bocas” (1977), surgem canções como “Coração Vagabundo” (1965)” e “Baby”, ambas de Caetano Veloso, sendo que a última marca o álbum “Tropicalia ou Panis et Circencis” (1968) (“sem dúvida, a parte fundamental da minha carreira, que me projetou”, pontua Gal).

Do período mais transgressor de Gal Costa, “Vaca Profana” (1984), de Caetano Veloso, e “Tuareg” (1969), de Jorge Ben Jor, relembram uma cantora que não grita no microfone da mesma forma underground do passado, mas mantém o cristal da voz brilhando. Ela mesma reconhece que precisou de cautela para moldar a fase mais roqueira em arranjos intimistas. “O Guilherme conseguiu dar força e sensibilidade a todo o repertório. Mas claro que não canto ‘Vaca Profana’ aos gritos. Porque existe apenas uma guitarra me acompanhando, ainda que ela traduza muita intensidade e peso, não há uma banda ali”, diz Gal.

O show ainda tem espaço para pérolas como “Tigresa” (1977) e “Meu Bem, Meu Mal” (1981), mais duas da safra de Caetano, e a clássica “Meu Nome é Gal” (1981), de Roberto e Erasmo Carlos. A única canção inédita é “Espelho D’água”, que tem melodia melancólica de Marcelo Camelo e letra do irmão do compositor carioca, Thiago Camelo – em parceria inédita. “Me atrai muito o jeito do Marcelo compor. Decidi batizar o show com o nome dessa música porque além de ser um espetáculo novo com canção de um compositor novo para mim, tem o lance de o espelho d’água significar reflexo, coisas do passado, do presente e até do futuro – que resume bem o show”, atesta Gal.

DISCO. Em meio à turnê de “Espelho D’água”, Gal Costa também prepara um novo disco de inéditas com uma turma de peso. Entre as novidades, ela vai regravar a canção “Dez Anjos”, parceria entre Milton Nascimento e o rapper Criolo no show “Linha de Frente”. Outros bambas da música brasileira confirmados para contribuir com o álbum são Gilberto Gil e Caetano Veloso. “Posso adiantar que terá gente que gosto muito e também músicos da nova geração num trabalho todo de inéditas”, diz Gal.

Agenda

O que. Gal Costa – Show “Espelho D’ Água”

ONDE. Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1.537, centro)

QUANDO. Amanhã, às 21h

QUANTO. As entradas inteiras custam R$ 200 (setor I), R$ 180 (setor II) e R$ 140 (plateia superior)

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