Tentativas de aproximação

Esquyna Latina terá leituras, debates e espetáculos

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Premiada. A argentina Valois é destaque da peça “La Mujer Porca”, que se apresenta neste fim de semana no Esquyna
nora lezano/divulgação
Premiada. A argentina Valois é destaque da peça “La Mujer Porca”, que se apresenta neste fim de semana no Esquyna

Historicamente se diz que o Brasil está (ou esteve) de costas para seus “hermanos” latino-americanos. Talvez o fato de ser o único em toda a América Latina a não falar castelhano, fez com que o país não reconhecesse seus vizinhos como pares. Mas é inegável que o estreitamento de laços por temáticas que concernem a todos os povos latinos, brasileiros incluídos, anda cada vez mais em voga. A segunda Mostra Esquiyna Latina começa hoje para comprovar a aproximação com tema de dois grupos de Belo Horizonte, o Teatro Mayombe e o Grupo Teatro Invertido, que recebem um dos coletivos mais celebrados da atual cena teatral argentina, o Elefante Club de Teatro.

“Diferente do que acontece em grandes festivais e eventos internacionais, no Esquyna Latina o grupo convidado ‘habita’ a sede compartilhada dos grupos Teatro Invertido e Mayombe por alguns dias. Além de apresentar seu espetáculo mais recente, assiste outros trabalhos, participa de debates e trocas com outros grupos da cidade”, pontua Leonardo Lessa, integrante do Grupo Teatro Invertido.

“É fundamental entender o Brasil inserido na América Latina e a sua produção artística como um todo em diálogo. De fato, há períodos em nossa história em que isso foi mais evidente (antes das ditaduras) e períodos nos quais se fechou o diálogo (durante os governos autoritários da América do Sul). Atualmente, existem condições sociopolíticas que permitem restaurar esse intercâmbio de forma frutífera”, comenta Sara Rojo, integrante o Mayombe Grupo de Teatro.

Rojo é chilena, professora da Faculdade de Letras da UFMG. O Mayombe, com 19 anos de estrada, concentra sua produção em temáticas latinas. “Em todos os nossos 11 espetáculos, mantemos uma linguagem que aspirou a falar de América Latina a partir de estéticas diferentes, mas sempre procurando uma visualização política em tensão. Não queremos dar receitas, queremos um espectador que reflita conosco”, pondera.

Sobre o teatro produzido aqui e no restante da América Latina, Rojo prefere não apontar traços fundamentais a esses trabalhos, que poderiam uni-los em suas estéticas ou temáticas. “O teatro latino-americano é amplo e possui muitas vertentes desde o teatro comercial até o teatro de pesquisa. Em Belo Horizonte, há uma variedade de propostas que abrangem todo um leque de possibilidades”, finaliza.

Programação. A segunda edição da mostra traz como temática principal os 50 anos do Golpe Militar de 1964, quando os militares assumiriam “provisoriamente” a presidência da República, afastariam os comunistas do poder, representado pelo então presidente João Goulart, e devolveriam o país aos “homens de bem”. Bem, é sabido que isso não aconteceu. Os militares tomaram gosto, ficaram mais de 20 anos no poder e protagonizaram uma das páginas mais violentas da história recente do país, após o AI-5, de dezembro de 1968.

“O Esquyna Latina pretende não ser somente um espaço de exibição, mas principalmente de reflexão e intercâmbio. Sua criação tenta aproximar artistas e público da capital mineira com criadores latino-americanos, elegendo a cada ano um recorte específico”, pontua Lessa.

“Este ano, trazemos uma reflexão necessária e, até o momento, ausente na capital mineira. Como era o movimento teatral durante as ditaduras que assolaram a América Latina? Especificamente, o que aconteceu em Minas Gerais”, indaga Rojo.

A programação inclui leituras dramáticas, debates e espetáculos. Hoje, o público confere a leitura de “Delito Carnal”, de Eid Ribeiro, com o Teatro Invertido e o Mayombe, com direção de Rojo. A leitura será seguida pelo debate “Dramaturgia, História e Regimes de Exceção”, com mediação de Antonio Hildebrando. Amanhã será a leitura de “O Último Carro”, de João das Neves, com a ZAP 18 e direção de Cida Falabella, seguida por debate, com a mesma temática do dia anterior, mediado por Fernando Mencarelli.

Na sexta, a peça “Klássico (com K)”, da Mayombe, faz única apresentação. Com direção de Rojo, o trabalho se inspira em personagens clássicos da dramaturgia ocidental: Ulisses, Medeia, Antígona e Fausto. Sábado e domingo, o espaço recebe O Elefante Club de Teatro, que apresenta “La Mujer Puerca”, seguida por debate com o crítico argentino Federico Irazábal. “Essa parte do projeto é a troca entre nosso fazer cênico e o de um grupo convidado”, comenta Rojo.

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