A cilada vivida por quem se apega somente às aparências

Samuel Gomes Psicólogo escritor

iG Minas Gerais | Ana Elizabeth Diniz |

Editora Dufaux/divulgação
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O que o levou a escrever esse livro?

Quis ajudar as pessoas a lidar melhor com os problemas, principalmente aqueles que nascem na própria mente, visto que entre 50% e 60% deles são produção pessoal, gerados pela forma de interpretar e sentir as coisas. A ideia do livro é ajudar a pessoa a se conhecer melhor, pois essa consciência é libertadora. Esse trabalho de auto-observação pode se mostrar meio lento no início, mas com a prática dos exercícios diários que proponho no livro, a pessoa cria um bom hábito de conhecer a si mesmo, de perceber o quanto sua mente pode ser perturbadora. Nesse ponto, o processo fica mais rápido. A forma como fomos educados tem influência sobre a mente?

Sim, nossa educação é voltada para fora. Não fomos criados para buscar um referencial pessoal e nem para olhar para dentro de nós. O livro tenta quebrar esse condicionamento. Nos acostumamos a nos definirmos por meio de títulos e nomes e nos apegamos às características dessas definições, que apenas expressam conhecimento, e acabamos repetindo que somos isso ao longo de toda a vida. Devemos exercer nossas funções apenas como aspectos pontuais da nossa vida e não mais nos identificar com a personalização de pai, mãe, motorista, médico, engenheiro, e sim ser agentes da inteligência. As pessoas deveriam se acostumar a olhar para o conteúdo verdadeiro que está dentro delas. É isso que todas as religiões falam, mesmo que de formas diferentes, mas elas não sabem investigá-lo, querem a coisa pronta. Isso não vai acontecer. Esse apego às aparências gera muito sofrimento?

Sim, porque a pessoa não entra em contato com ela, ela se realiza por fora, mas não por dentro. Para isso é preciso o autoencontro. Os rótulos ajudam em alguns momentos, mas não sustentam a intimidade do ser. Nossos momentos íntimos são perturbadores, porque não gostamos de ficar conosco e, quando isso acontece, ligamos a televisão e nos voltamos para o exterior. Temos um jogo mental de autodepreciação, de culpa e nos recusamos a nos investigar. As pessoas têm que aprender a gostar de si mesmas, começando a mudar a forma como se relacionam consigo mesmas. Elas se adaptam ao padrão social, que é extremamente superficial, e não se aceitam, daí travam uma luta íntima. As pessoas hoje precisam de paz e serenidade muito mais do que de objetos. Você propõe a valorização da inteligência emocional?

O livro valoriza a inteligência intrínseca do ser, que é essencial e se desdobra em inteligência emocional, espiritual, comunicativa. Cada um de nós foca determinado aspecto dessa inteligência de acordo com a ocasião. Toda função humana é voltada para o uso de uma inteligência específica, e, com isso, se abre mão das outras. O homem está mais preocupado com sua imagem, com a impressão que passa para as pessoas, e, quando acredita que passou uma impressão ruim, sofre e se acha que passou uma imagem boa, se vangloria. Todos os dois aspectos são perturbadores. Um gera prazer e o outro desprazer. Não queremos sofrer e, por isso, buscamos o prazer como compensação, mas ele é uma armadilha do sofrimento. Assim, caio na dualidade do sofrimento, a busca do prazer e a fuga do desprazer. O que se vê é que a mente conduz a pessoa, quando ela é que deveria conduzir a mente. A pessoa acha que é a sua mente, mas ela é um órgão de dimensão fluídica. É preciso compreender como a mente funciona, os pensamentos, as emoções e a conjugação dos dois. Onde entra a consciência?

Ela é o olhar da mente. Como tenho a consciência visual e auditiva, é possível perceber a mente. Quando a pessoa tem uma sensibilidade mais apurada (conseguida com o exercício proposto), além de perceber o movimento externo da vida, ela conhece o movimento interno mental e conjuga as duas realidades. Quando se tem amplitude de percepção, a consciência dilata e você tem uma consciência mais plena. Algumas pessoas descobrem que são regidas pelo medo, e isso não pode acontecer, elas têm que aprender a lidar com as emoções, saber que elas são passageiras e a não dar muita importância a elas. Onde entra a espiritualidade?

Quando falamos de uma realidade que ultrapassa os cinco sentidos, há uma ilusão de que espiritualidade é algo extraordinário, fora do comum, porque é invisível à percepção. Por isso, a luta entre ciência e religião é muito mais conceitual do que a observação do fato em si. Em alguns momentos a ciência lida com elementos que ultrapassam os cinco sentidos, é a realidade espiritual, mas que eles chamam de ciência. Muitas vezes estudam a espiritualidade sem saber. É preciso bom senso para definir o que é espiritual. Nossa percepção da vida exterior é muito limitada, a realidade íntima do homem ultrapassa em muito os sentidos, entre eles, a realidade da mente. Quando percebemos que o espiritual está relacionado com algo que ultrapassa o estado material bruto, o universo abre para nós as portas de um entendimento quase infinito. O livro leva em consideração o lado da criatura humana que ultrapassa os cinco sentidos. A ciência sabe que a realidade é muito superficial, mas há muito preconceito. As pessoas se prendem a conclusões e defendem mais um ponto de vista do que a observação da realidade. Conceitos geram preconceitos que levam às lutas. A ciência em si é muito humilde, mas o cientista gosta de defender sua opinião como se fosse a própria ciência, assim também faz o religioso. As disputas e separações religiosas são de conceitos. É preciso criar relacionamentos mais harmônicos, mais fraternidade e respeito mútuo. Para comprar: Site da livraria - http://www.livrariasaraiva.com.br/ ou no site do autor www.samuelgomes.blog.br

Definições Deus: Inteligência superior do universo. Morte: Processo de transição da consciência. Religião: Contato harmonioso com a própria natureza do ser. Imortalidade: Vida da consciência no seu estado de eternidade. Sofrimento: Distanciamento da pessoa na sustentação da ilusão em relação a si. Amor: Encontro da pessoa consigo, com o outro e com Deus.

Exercício Marque três minutos no celular e observe a si mesmo, o jogo dos seus pensamento e emoções, sem julgar e resistir, tudo de forma natural, sem se condenar. Faça isso de olhos abertos e depois marque mais três minutos e faça a mesma coisa de olhos fechados. O propósito é conhecer quem você realmente é. Vai chegar uma hora em que você vai perceber que o pensamento tem ritmo e, com o passar do tempo, que ele vai diminuindo. O tagarelismo vai ficando menos intenso e dá lugar a um espaço vazio entre os pensamentos, o não pensamento. Quando isso ocorrer, você pode aumentar o tempo da prática para 15 minutos de olhos fechados e 15 com os olhos abertos.

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