Da música às artes plásticas

Reedição da obra completa de Murilo Mendes propõe novo acesso ao autor conhecido pelo diálogo com outras artes

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Fronteiras. O interesse de Murilo Mendes por diferentes vertentes das artes, além de outras áreas, marca a qualidade de sua poesia
Araujo Neto
Fronteiras. O interesse de Murilo Mendes por diferentes vertentes das artes, além de outras áreas, marca a qualidade de sua poesia

Conhecido pela afinidade com a vertente surrealista, Murilo Mendes deixou uma obra, no entanto, difícil de ser fixada em um momento específico. Por esse motivo, Murilo Marcondes de Moura, um dos curadores do projeto de relançamento de toda a produção literária do autor, realizado agora pela Cosac Naify, reforça a necessidade de percebê-lo pelo viés da multiplicidade. Mendes não só revelaria interesse por essa corrente, mas pelas artes plásticas em geral, além da música, da ciência e da religião.  

“Murilo Mendes descobriu o surrealismo dos anos 1920, enquanto no Brasil surgia o movimento modernista. Como seus contemporâneos, ele era muito cosmopolita e se informava sobre o que estava acontecendo lá fora. Havia em torno disso, o interesse em atualizar questões da estética que se produzia no Brasil naquele momento e, sem dúvida, a corrente surrealista lhe interessou muito. Porém, essas classificações são complicadas e ele não pode ser visto apenas como um poeta surrealista”, observa Murilo Marcondes de Moura.

Para ele, Mendes, certamente, se valeu de características da estética surrealista, que permeia o seus poemas, sem se prender, no entanto, a modelos rígidos. “A prática associativa de ligar imagens, como numa fotomontagem, é uma coisa cara ao surrealismo e que aparece em suas poesias. Outro elemento frequente é a abertura para o insólito e para aquilo que foge da rotina e se revela surpreendentemente provocador”, explica ele.

Moura destaca que a escrita do poeta mineiro é permeada por uma visão da poesia ampla e considerada por ele tão importante quanto a ciência e a religião. Por esse motivo, sua obra abraça não só temas diversos como ultrapassa o limite das linguagens, se aproximando de outras artes.

“A poesia dele se estabelecia nesse horizonte muito aberto de possibilidades. Ele dialogava não apenas com a pintura, que conhecia muito, mas também com a música. Ele escreveu, em altíssimo nível, textos sobre ambas as artes. Nos seus últimos anos de vida, inclusive, ele era um dos críticos de arte mais prezados da Itália”, comenta Moura, recordando o período em que Mendes viveu em Roma, onde lecionou literatura brasileira.

Apesar de perceber em outros contemporâneos seus, como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, postura semelhante, Moura nota que Mendes talvez tenha sido mais tocado por esses diálogos. “Ele experimentava modos de composição na poesia que de alguma forma incorporavam procedimentos utilizados tanto na criação musical quanto de artes plásticas. Perceber isso pode ser uma das chaves de abordagem de sua obra, em razão das diferenças estéticas que ele apresenta entre as criações de outros grandes escritores brasileiros”, pontua o estudioso.

Acesso. A multiplicidade que caracteriza a literatura de Mendes, reconhece Moura, revela uma complexidade particular. “Ele associa, às vezes, coisas tão díspares e heterogêneas, oriundas tanto do mundo da religião, quanto do surrealismo e da realidade humana em geral, que sua poesia é algo que não se entrega facilmente”, afirma o curador.

Em razão disso, a obra do escritor, dentre aquelas de outros nomes da literatura brasileira, encontraria menor acesso. No entanto, ele reivindica a necessidade de novos olhares para os textos que refletem, sobretudo, sua vocação humanista.

“Ele sempre foi um crítico da unilateralidade da ciência. A poesia para ele podia de alguma forma concorrer ou, pelo menos, corrigir alguns dos problemas da humanidade. Ao seu ver, por meio da poesia seria possível chegar a uma compreensão mais aperfeiçoada da experiência humana. Sua criação poética é fruto dessa busca de uma visão de homem mais universal”, sintetiza Moura.

Saiba mais

A reedição dos livros de Murilo Mendes será celebrada com o lançamento de quatro volumes no seminário Murilo Mendes: O Poeta Revisitado, que acontece quinta e sexta-feira no Museu de Arte Murilo Mendes, em Juiz de Fora.

Mais informações no site: www.museudeartemurilomendes.com.br

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