O céu estrelado

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Hoje vou falar de filósofos, não fujam. Eles são Lucrécio, Spinoza e João Carlos de Oliveira. Esse último foi o cara mais inteligente que conheci em minha vida. Éramos adolescentes, colegas de colégio. Conversávamos muito de noite, sob as estrelas. Apontei para o universo e, filosófico, arrisquei minha perplexidade: “Afinal, o que é isso tudo?” – Não “é” nada – respondeu João Carlos. – Como “nada?.” – estranhei. – A pergunta está errada por achar que o universo “é” alguma coisa. O problema é nossa linguagem limitada. Ou seja, como se o universo fosse “algo” fora dele – o que o explicaria. Não dá para usar o verbo “haver ou ser”. – Como assim? – pergunta típica de mau diálogo. –Tudo e nada são a mesma coisa. São impensáveis. A noção de “nada” e de “tudo” é uma ideia de viventes. Como você vai morrer, o seu cérebro se programa para imaginar que “há” uma coisa e “não há” outra. De que há o “cheio” e o “vazio”, de que há o vivo e o morto. Ideia de viventes. Eu pasmava diante da facilidade de seu raciocínio. João vivia sozinho pelos corredores do colégio. E eu o perseguia em busca de conversa, desde o dia em que, maravilhado e humilhado, ouvi-o falar sobre Popper, o filósofo da ciência que ele já tinha lido. Eu nem sabia quem era, e ele me mostrou, com frases em inglês de que “the rule of thumb”, segundo Popper, era um modo tosco de se aferir alguma verdade. “Quem será esse cara?”, pensei. E começamos uma tímida amizade, em que eu refreava minha admiração para não sucumbir de inveja. João Carlos não era apenas um solitário. Ele parecia ter contato com alguma coisa transcendental com a qual se comunicava com um olho interior, como através de um vidro. Ele não falava com quase ninguém, e eu me sentia quase honrado com suas conversas. Eu via que suas frases vinham de um lugar testado, vivido dentro dele. Eu perguntava, e ele respondia, e eu, para evitar o vexame, discutia a partir de coisas que ele próprio afirmara, velha técnica dialogal que ele conhecia e aceitava, com suave tolerância a minha ignorância. Quantos anos teria esse rapaz? Talvez uns 17. Ele não tinha cara de gênio, mas era. Uma vez, quebrou o braço e ficou uns dois dias no hospital. Lá, escreveu alguns versos e me mostrou rindo; eram poemas em prosa, meio “rimbaldianas”. Quase desmaiei de emoção e inveja. Eram poemas de alto nível, dos quais me lembro de só um, em que uma princesa de sandálias de ouro andava sobre a neve. Ele ria de seu delírio “metafísico”. Em outra ocasião, entrou em cartaz um filme chamado “Planeta Proibido”. Fui ver com ele. O “Planeta Proibido” era vazio a não ser por um robô e pela herança de um povo morto, os Krells, sumidos num buraco negro que continha todas as informações da história daquele lugar. Só não havia mais habitantes. Para onde teriam ido? João Carlos falou: “Acho que esse planeta é a Terra daqui a mil anos. Um dia só haverá informações sem homens”. Estávamos em 1957, e nem se sonhava com internet. Outra vez, ele me disse, de repente, como resolvendo um problema: “O ‘nada’ tem massa!” – Que quer dizer isso? – balbuciei. – Eu li numa revista de ciência que descobriram uma partícula chamada “neutrino”. – Que porra é essa? – interrompi, ostentando um certo desprezo por novidades científicas. Estávamos na amurada da praia da Urca, sob as estrelas. Falei uma frase do Eça de Queiroz para impressioná-lo: “As estrelas são a lepra luminosa na face de Deus.”. Ele nem prestou atenção, olhando para o alto. – O nada tem massa – repetiu. Os neutrinos estão em todo o universo, têm massa e atravessam qualquer matéria. São invisíveis, mas ocupam todo o espaço. O invisível tem massa, e isso é sinal de que não há o “nada”. Nada não há. É impossível pensar o “nada”. Como pensar o tempo. O tempo é que nos pensa. – E Deus? – Deus é a substância de tudo. E nós, humanos, somos atributos dela. Substância é aquilo que eterna e imutavelmente é. Não há Deus de um lado e as coisas do outro. Logo, Deus (a substância) é a única coisa que existe. Naqueles anos de colégio, vários colegas morreram. Fulano morreu de tifo, sicrano foi atropelado, beltrano de causas misteriosas. E João Carlos morreu. É. Ele tinha ido para o curso científico, e eu, para ciências humanas. A partir daí, eu o via pouco. Andava com uns “nerds” de óculos de tartaruga ligados à matemática. Eles conversavam em voz baixa e eu às vezes me infiltrava e ficava ouvindo, fingindo entender coisas sobre teoria quântica etc. Um dia, João Carlos sumiu. Disseram que ele estava doente. Eu e um amigo fomos visitá-lo na Tijuca, na rua São Francisco Xavier, no fim de uma tarde. Ele estava de pijama listrado, a mãe cuidando dele com os parcos remédios da época. Ele estava numa cadeira de balanço em frente a uma grande janela. Estava bem mais magro, com uma cor baça, um vago tom de cinza. Ficamos conversando, evitando qualquer assunto que lembrasse sua fraca condição. Ele via tudo e embarcava na conversa evasiva – “Ahh... porque o Flamengo, porque isso, aquilo...” E a tarde ia caindo, sua mãe trazia os remédios e chá, ligou a TV em preto e branco de pés de palito enquanto a noite enegrecia o céu limpo de verão. Falei de sua poesia que eu tinha lido havia anos. Riu: “Matemática é mais poética...” E o céu se cravejava de estrelas. – O Centauro! – ele falou. – O quê? – A constelação. É tudo uma chuva de átomos eterna. Epicuro, Lucrécio e Shakespeare sabiam que “nada vem do nada”. Estamos mergulhados num caldo de cultura infinito, onde parece que boiamos; apenas “parece”, pois somos também o caldo onde boiamos. Lembro-me que ainda falou que a matéria quer sossego e que seu corpo também, muito além do sono… Ficamos em silêncio. Na TV, uma tosca novela soava baixinho, diante da mãe triste. Ele ainda nos falou rindo: “Depois do tri do Flamengo, vocês estão muito mascarados…” Saímos. Nunca mais vi o João Carlos. E agora fiquei na dúvida: era Oliveira ou Fernandes?

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