Economia de recursos resulta em obras ineficazes na capital

Com orçamento escasso, vias e acessos são construídos longe da forma ideal, prejudicando o trânsito

iG Minas Gerais | Joana Suarez |

Quem passa hoje pelo recém-inaugurado viaduto João Samaha, que liga a avenida Pedro I ao bairro São João Batista, em Venda Nova, é obrigado a frear forte devido à inclinação acentuada na parte final da estrutura. Esse é só um exemplo de problemas encontrados pela cidade de projetos de obras viárias, antigas e novas. Segundo especialistas em tráfego, a necessidade de fazer as obras com o menor custo possível faz com que, muitas vezes, ao projetar a estrutura, se deixem de lado alguns preceitos que fariam o trânsito fluir melhor. Os profissionais da área consideram que rampas fortes e curvas muito fechadas, por exemplo, exigem mais cuidado do motorista e é preciso diminuir a velocidade. Com isso, em vez de ajudar o trânsito, essas obras acabam causando mais retenções e até aumentam o risco de acidentes.

Os exemplos são muitos e vão desde as vias mais antigas, como inclinação do famoso tobogã, na avenida do Contorno, e o traçado sinuoso da avenida Antônio Carlos, a obras mais recentes, como o viaduto Hélio Pellegrino, próximo ao Anel Rodoviário, que precisa de sinal porque termina no meio da avenida Cristiano Machado; ou as pistas que começam com três faixas e terminam com duas, como ocorre no viaduto José Alencar, que dá acesso à avenida Abrahão Caram, na Pampulha.

Em junho do ano passado, O TEMPO publicou uma reportagem com dez "pegadinhas" como essas que existem no trânsito da capital em obras antigas, que provocam áreas de conflito. Elas foram apontadas pelo especialista e professor de trânsito Luiz Roberto Silva, que vem pesquisando as obras de mobilidade da capital desde 1967. Hoje, conforme a avaliação de Silva, as falhas se repetem nas novas construções, indicando que os problemas vão permanecer ou se agravar, como no caso do viaduto João Samaha, entregue neste ano.

Opções. De acordo com o diretor da Consol, que projetou a estrutura, Maurício de Lana, foram desenhadas três opções para fazer a ligação que a BHTrans indicou no estudo viário. "Duas delas teriam rampas mais suaves, mas não puderam ser feitas porque dependiam de mais verbas para fazer as desapropriações e de mais tempo para a concessão de licenças ambientais necessárias", esclareceu Lana.

Segundo ele, por causa da opção da prefeitura de utilizar um espaço menor, a inclinação teve que ser a que se tem hoje. "Tenho a responsabilidade de projetar dentro da norma, obedecendo à geometria permitida e à fluidez do tráfego. Mas algumas soluções ficam mais caras. Já negamos pedidos da prefeitura que ficavam inviáveis em termos de segurança", disse.

Para o especialista de trânsito Osias Baptista, o grande problema é que a obra tem de ser adaptada à verba que se tem para ela. "Surgem várias alternativas, por causa das desapropriações. Teria que ser a solução mais simples para o motorista, mas, no final, podem sair projetos que pioram a circulação porque dependem de recursos", explicou. Para Luiz Roberto Silva, vai ficar inviável locomover-se em Belo Horizonte, principalmente para quem vem de outras cidades. "A capital ficará retida com a falta de escoamento causada por erros de construção. A prefeitura está fazendo os projetos, e a gente só vê os problemas quando as obras estão prontas", destacou.

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