Paixão nem sempre herdada

Pais cruzeirenses e atleticanos tentam aceitar ‘de boa’ a opção dos filhos pelo maior rival

iG Minas Gerais | Bruno Trindade |

Em clima de brincadeira, Guilherme e o pai Hamilton às vezes se provocam
LINCON ZARBIETTI
Em clima de brincadeira, Guilherme e o pai Hamilton às vezes se provocam

A relação entre pai e filho reúne diversos laços de afinidade, que ultrapassam o carinho, o amor e o respeito. Essas relações costumam se estender para as semelhanças do gênero masculino, ao estilo de vestuário, à orientação sobre profissões, à parceria em jogos eletrônicos, esportes e brincadeiras, a dicas sobre relacionamentos, além da paixão pelo futebol.

Claro que tudo isso cria o desejo em ambos de compartilhar decisões e de se espelhar um no outro. Entretanto, nem sempre as vontades do genitor se refletem nas escolhas de seus descendentes. A autonomia que os pais costumam transferir para os filhos ao longo da vida criam nos jovens interesses próprios, gerando algumas opiniões contrárias como na escolha do time do coração.

No mundo da bola, por exemplo, o momento dos principais clubes, as influências de amigos ou parentes da mesma idade ajudam os jovens definir por quem vão torcer, independentemente da vontade dos pais. Foi assim que o atleticano e estudante de administração Gabriel Nunes Castro, 21, criou amor pelo Galo, mesmo com o pai e analista de sistemas Gervásio Gonçalves Castro Filho, 55, sendo apaixonado pela Raposa.

“Eu me lembro que ele não ficou muito feliz com a minha escolha de ser atleticano. Claro que ele queria que eu fosse cruzeirense. Mas ele respeitou”, declarou Gabriel. Mas antes de “aceitar”, Gervásio confessa que tentou inverter a situação. “Tentei dissuadi-lo. Mas quando vi que a paixão dele pelo Atlético era igual à minha pelo Cruzeiro, eu aceitei, porque futebol é diversão e respeito”, contou.

A situação também faz parte da realidade do pai comerciante e atleticano Hamilton Costa da Silva, 55, que viu o filho jornalista Guilherme Barreto, 26, se tornar cruzeirense. “Ele incentivou que eu me tornasse atleticano. Era o time dele e tinha uma pressão forte. Na verdade, tinha mais pressão de um tio meu para que eu virasse atleticano. Mas essas pressões não foram suficientes”, disse Guilherme.

Hamilton se diz admirado com a atitude do filho. “A tendência de um filho é copiar as escolhas do pai. Achei interessante a personalidade dele de escolher um time que não era o mesmo que o meu”, elogiou. Gervásio, o pai cruzeirense que viu o filho torcer pelo Galo

História com o Cruzeiro. “Sou cruzeirense desde pequeno. Meu pai era americano, mas ele queria me influenciar a ser Fluminense. Como morávamos em Peçanha, lá a rádio só transmitia jogos dos times do Rio de Janeiro. Mas não teve jeito. Vivi a época de Dirceu, Tostão e Piazza. Era difícil não torcer por um time daquele”.

Escolha do filho. No início, sim (tentar convencer o filho a ser cruzeirense). A gente quer que o filho torça pelo time da gente, mas é coisa de escolha. Os primos dele, da mesma idade, eram atleticanos, aí ele acabou virando atleticano”.

Rivalidade. “Aqui em casa é meio a meio. Minha esposa e meu filho são atleticanos, e eu e minha filha somos cruzeirenses. Assistimos aos jogos uniformizados, sempre tem zoação, mas numa boa. Na final da Libertadores (2013), estava todo mundo ajoelhado na hora dos pênaltis: minha filha e eu torcendo para o Atlético perder, e meu filho e a mãe dele torcendo para ganhar”.

O alvinegro Hamilton ‘levou’ o filho para reduto celeste

Influências. “Na década de 1990, moramos em Poços de Caldas e Três Marias, redutos cruzeirenses. Com os colegas influenciando e o Cruzeiro ganhando títulos, ele passou a torcer. Sou da época do Reinaldo e do Luizinho. Eu morava no bairro São Pedro (BH), que era um reduto de atleticanos. Isso influencia.”

Como Gabriel, o filho de Gervásio, tornou-se atleticano

Escolha pelo Galo: “Meu pai não tinha costume de ir ao campo, e a gente mora do lado da casa da minha tia. Como eu tenho três primos com idade parecida e a minha tia é fanática e gostava de ir ao estádio, ela me levava, e acabei virando atleticano.”

Tentativa frustrada. “Meu pai tentou (fazer eu torcer para o Cruzeiro). Quando tinha dois, três anos, cheguei a ganhar uma camisa do Cruzeiro. Mas não teve jeito.”

A história de Guilherme, que contrariou o pai atleticano

Início: “Virei cruzeirense de 1993 para 1994 por causa do Ronaldo (Fenômeno), quando ele estava surgindo. Virei torcedor fanático.”

Rivalidade: “Em clássico, o nível de zoação fica mais alto. Quando o Cruzeiro perde, a primeira pessoa que me liga é o meu pai. Ele não falha.”

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