Brasil sem Photoshop

iG Minas Gerais |

Que tal ser quarentona, solteira, urbana, ter cada vez menos chance de encontrar um maridão e talvez até nem ter um filho? Apenas um terço casar-se, uma parte cada vez maior separar-se, outra, enviuvar-se. Lógico, os homens, cada vez mais raros no mercado, e o que é pior, dizem as más línguas, tanto em quantidade quanto em qualidade. Quanto aos filhos, tendem a ser únicos, ou, nomáximo, dois; três é coisa de descabeçado, rico, macho-alfa. Deve-se cada vez mais, ainda que o número de pobres e miseráveis tenha diminuído expressivamente. Enquanto isso, eletrodomésticos viram peças de museu: DVD, Blu-Ray, rádios, impressoras, TV analógica, fax, telefone fixo, PC, enfim, esse lixo tecnológico, como “cebolões” de celulares ridículos, que achávamos o máximo, pelos quais pagávamos absurdos e nos endividávamos para comprar, e, hoje, deletamos fotos em que fazíamos pose com aqueles tribufus, da mesma forma como, daqui a cinco anos, faremos tudo de novo, com os iPhones 6 caríssimos que os consumistas sonham comprar hoje para jogar fora no futuro. O certo é que o censo do IBGE não tem botox, nem plástica: o Brasil está envelhecendo a olhos vistos, não quer casar, não quer ter filhos, sobram mulheres e solteiros, os ricos ficam mais ricos, e os velhos, mais velhos. Em mais três décadas,começaremos a morrer mais que nascer, e, assim, nossa população deixará de crescer e começará a diminuir. Resta a esperança de importar chinês e indiano. Espaço há, e, até pouco tempo atrás, éramos muito abertos e receptivos. Vendo esse retrato do Brasil, recordo-me que parece que ainda ontem diziam que este era um país jovem, de futuro, alegre, uma potência que explodiria logo ali. É bem verdade que, vendo certas propagandas políticas, parece que chegamos lá, só que passamos e nem percebemos, tipo cidade pequena à beira da estrada: “Bem-vindo a Micrópolis”, e, a seguir, “Volte sempre”. Estranho o Brasil que vejo na foto. Falta a alegria, sobra o medo de andar na rua, de ficar em casa. De brincar na rua, de sentar na sala e ligar uma TV ou, solitário em família, escolher a tela do celular ou do laptop ou iPad, ao lado de queridos entes que dedilham seus interesses em suas próprias telas. Mas, olhando os dados do IBGE, salta aos olhos que 50% das famílias estão conectadas! Que bom, não é? Subimos no ranking de conectados, imagino que isso seja ótimo! Ah, cada vez as mulheres trabalham mais, infartam mais. Já passamos mais tempo no trânsito que em férias. Quanto progresso! E como deveríamos medir nosso grau de alegria, felicidade e amor nos últimos dez ou 20 anos? Difícil mensurar, pois nossa proposta é medir bens materiais, duráveis e semiduráveis. Afeto, sentimento, emoção são para quando tiver tempo, no show do intervalo do clássico entre sofrimento por antecipação x preocupação irrealista. Se possível, com narração do Galvão Bueno, antes do domingo do Faustão. O tempo passa, o tempo voa e nem o país do futuro continuou numa boa! Moçada, está tudo lá, o perfil do Brasil explica muita coisa. Mas confesso por que escrevi essa coluna: será que nenhum dos meus rebentos vai me dar a emoção de ter uma neta?

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