Poderio negro

Acusada de racismo, série “Sexo e As Negas” valoriza suas protagonistas e reafirma assinatura de Miguel Falabella

iG Minas Gerais | Geraldo Bessa |


“Sexo e As Negas” foge do realismo e abusa de clichês, uma função das obras de ficção
Globo
“Sexo e As Negas” foge do realismo e abusa de clichês, uma função das obras de ficção

O trabalho autoral de Miguel Falabella sempre aglutinou referências e exageros com altas doses de ironia. Cutucar feridas ao abordar minorias é, sem dúvida, sua fixação. De forma branda ou explícita, essa característica aparece desde sempre na escrita de Falabella. Basta lembrar dos núcleos cômicos de novelas como “Salsa & Merengue” e “A Lua Me Disse”. Ao longo do tempo, a voz ativa do autor cresceu e foi no formato de seriados que ele encontrou o melhor jeito de se expressar e se comunicar com o público. O amadurecimento da escrita pode ser conferido nas nuances e delicadezas dentro do contexto caótico de “Pé na Cova”. E é com essa mesma visão humanizada e sensível que o autor entrega “Sexo e As Negas”.

Pouco antes da estreia, a partir da divulgação dos teasers da produção, a presença da expressão “Negas” no título causou incômodo e ira por parte dos movimentos negros. Falabella se defendeu, mas a patrulha do politicamente correto resistiu, tentou mover processos e campanhas de boicote à série. No entanto, basta ver o primeiro episódio para entender que a gíria utilizada no título não tem nada de pejorativo. Em cena, Tilde, Zulma, Lia e Soraia, interpretadas, respectivamente, por Corina Sabbas, Karin Hils, Lilian Valeska e Maria Bia, em nada prejudicam a imagem da mulher negra. Na verdade, só valorizam. E surgem como uma espécie de The Supremes, Destiny’s Child ou Dreamgirls de Cordovil, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro.

Em atuações ainda engessadas, mas que podem crescer, o quarteto luta para se sustentar, sem esquecer dos anseios e pequenas fantasias do cotidiano de qualquer mulher. Foge do realismo e abusa de clichês, mas essa também é uma função da ficção. Maior nome do elenco, Claudia Jimenez surpreende com uma atuação contida na pele da afetuosa Jesuína, dona do bar que ambienta boa parte da trama. Abusando de caracterizações e falas inspiradas, a série ainda exibe bons momentos de Alessandra Maestrini, Marcos Breda e Maria Gladys.

Versão bem-humorada do seriado norte-americano “Sex and The City”, “Sexo e As Negas” tem cenas de sexo. Mas nada que possa causar calafrios nos mais puritanos. À meia luz, em cenas bem marcadas e sutis, a série mostra menos do que o título sugere. Esteticamente bem resolvida entre a visão suburbana de “Avenida Brasil” e “Suburbia”, a produção exibe as boas escolhas da direção geral de Cininha de Paula. No todo, “Sexo e As Negas” não agride ou choca, é bom entretenimento com as idiossincrasias do texto de um autor que encontrou seu espaço. Basta o público colocar os preconceitos e a vitimização de lado e se deixar levar.

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