Homossexual é agredido em ritual de ‘purificação de gays’

Ele foi abandonado com uma carta em seu bolso com menções religiosas e promessa de novos ataques

iG Minas Gerais | BRUNA CARMONA, DAYSE RESENDE E LUCIENE CÂMARA |

Local do crime. Abordagem aconteceu no meio da rua, no centro da cidade, em plena luz do dia
Nelson Batista / O Tempo
Local do crime. Abordagem aconteceu no meio da rua, no centro da cidade, em plena luz do dia

A barba queimada e o braço machucado denunciam a violência, mas o que aconteceu com um auxiliar administrativo de 19 anos, morador de Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte, ainda é um mistério. Ele diz ter sido torturado, na tarde da última quarta-feira (17), ao chegar em casa e ser colocado à força dentro de um veículo por três homens. “Dentro da Kombi, me batiam e me enforcavam. Enrolaram um pano no meu braço e colocaram fogo no meu cabelo e na minha sobrancelha”, contou o jovem, que teria perdido a consciência durante o ataque. Após cerca de 40 minutos de agressões, ele relata ter acordado em uma calçada e encontrado uma carta em seu bolso, que, entre outras coisas, dizia: “Esse foi apenas o primeiro da cidade a passar pela purificação.”

Homossexual assumido, ele já havia sido agredido por dois homens na semana passada e acredita ser alvo de homofobia. O caso foi registrado na 4ª Delegacia de Polícia de Betim, e é investigado como tentativa de homicídio. O delegado Rafael Horácio vai apurar também a suspeita de crime religioso, em virtude do teor da carta apresentada pelo rapaz.

Versão

A vítima contou que chegava em casa, no centro, às 14h, quando uma Kombi branca de vidros escuros parou a seu lado e, dela, saíram dois homens, os mesmos que o teriam agredido cinco dias antes. “Eles estavam com facas e me obrigaram a entrar no veículo”.

Enquanto os dois homens o agrediam, principalmente no abdômen, um terceiro dirigia e fazia orações, segundo o jovem. “Eles pediam perdão pelos meus pecados, pediam que eu fosse salvo”. O rapaz contou ainda que os agressores enrolaram uma espécie de papel feito de lã, que poderia ser algodão, em seu braço e atearam fogo. A barba e os cabelos também foram queimados. “Desmaiei. Não sei se pelo cheiro da fumaça, pela dor ou pelo estresse do momento”.

Veja trechos do aviso que a vítima diz ter encontrado em seu bolso
Reprodução
Veja trechos do aviso que a vítima diz ter encontrado em seu bolso

Ele disse ter sido abandonado em uma rua próxima ao local onde foi abordado, de onde ligou para o namorado e um amigo, que o socorreram. No mesmo dia, foi à delegacia e mostrou a carta que teria sido deixada em seu bolso. O texto não faz menção a nenhuma religião, mas informa que a intenção é fazer uma “limpeza” em Betim, e trazer o fogo da purificação a cada um que anda nas ruas “declarando seu ‘amor’ bestial”.

O auxiliar administrativo denunciou o fato em seu Facebook, o que, segundo ele, foi uma tentativa de evitar outros casos. No fim da tarde de sexta-feira (19), ele saiu de casa, ainda com marcas da violência, para um retiro na região metropolitana. Conforme ele mesmo explicou, a intenção era “desligar a cabeça” e esquecer o que aconteceu.

Movimento

O presidente do Movimento Gay de Betim, Cléber Eduardo, lamentou a violência relatada pelo auxiliar administrativo. "A comunidade LGBT está assustada. Infelizmente, preconceito existe, mas esse é o primeiro fato dessa grandeza já registrado por nós na cidade. Repudiamos a violência".

Cléber Eduardo informou que pretende, na próxima semana, organizar um ato em repúdio. “Vamos buscar parcerias com a OAB, a Câmara Municipal e os Direitos Humanos. Nossa luta é pela identificação dos suspeitos”.

Abordagem não é nova na cidade

O relato do auxiliar administrativo sobre a violência sofrida gerou grande repercussão nas redes sociais e até um comentário de que é comum casais gays serem abordados por grupos religiosos em Betim. A estudante de arquitetura Fernanda Gomes, 20, diz que já passou por uma situação dessas, mas sem agressão física.

Há dois anos, ela conta que estava com a ex-namorada em um ponto de ônibus, quando seis homens se aproximaram e começaram a condenar a união das duas. “Eles diziam que nosso namoro não era de Deus e ficavam falando partes da Bíblia”, relatou. Fernanda lembra que o grupo acompanhou as duas durante todo o trajeto no transporte coletivo, orando ao lado delas. “Encarei isso como uma falta de conhecimento. Mas minha ex-namorada ficou bem nervosa”.

A 4ª Delegacia de Polícia de Betim informou não ter outros registros de homofobia ou perseguição religiosa contra homossexuais.

Fundamentalismo

O doutor em ciência da religião Paulo Agostinho acredita que tem crescido no país o fundamentalismo religioso, que interpreta o texto sagrado sem levar em conta o contexto histórico.

"Em nome do fundamentalismo, essas pessoas têm a certeza de dizer que estão com a verdade e discriminam o que não acham certo. Essas pessoas passam por cima do mais importante da pregação religiosa, que é amar aos outros".

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