Ode ao reduto da inventividade

16ª edição começa hoje no Palácio com reflexões de linguagem, engajamento político, sexual e retrospectiva recorde

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

‘Redemption’ é curta do português Miguel Gomes, diretor de ‘Tabu’
FCS
‘Redemption’ é curta do português Miguel Gomes, diretor de ‘Tabu’

Se é verdade o que os franceses dizem que os melhores perfumes vêm nos menores frascos, então o Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte é como a passagem de uma boutique requintada e exótica pela capital mineira. Numa época em que o circuito comercial é infestado por títulos como “Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola”, visitar o Cine Humberto Mauro, a sala Juvenal Dias e o espaço Mari’Stella Tristão, no Palácio das Artes, entre hoje e 28 de setembro, pode representar um respiro de ar puro, fresco e renovado.

“Filmes de duas horas não são mais cinema que filmes de 15 minutos”, proclama Rafael Ciccarini, curador do Humberto Mauro e coordenador do festival, que começa hoje às 20h com a exibição dos quatro curtas mineiros premiados no 1º Edital de Curta-metragem de Baixo Orçamento da Fundação Clóvis Salgado em 2013. Ele reconhece que o curta pode servir como passagem para o longa, mas existem também diretores que usam o formato como proposta estética. “Trabalham com curta por desejo, não por falta de dinheiro e estrutura. A gente busca filmes com essa característica de possibilidades múltiplas do fazer e do fruir cinematográfico para o público”, estabelece.

Neste ano, essa proposta será refletida em 112 curtas de 26 países e 12 Estados brasileiros. Eles serão divididos em três mostras competitivas (mineira, nacional e internacional), sete paralelas e duas especiais – a maior retrospectiva do ícone do cinema experimental Ken Jacobs já realizada no mundo (leia abaixo) e uma seleção de curtas argentinos feita pelo crítico Roger Koza, que ministra um curso relacionado ao recorte entre os dias 21 e 23. “Vamos mostrar um cinema argentino para além do que já se conhece, das histórias burguesas de classe média narrativamente bem feitas, com uma variedade estética e uma riqueza de pontos de vista que não reverberam tanto no circuito comercial”, promete Ciccarini.

Facetas. Essa diversidade também poderá ser sentida na competitiva internacional. São 16 filmes de lugares que vão do Paraguai à Alemanha e Vanuatu – uma ilha do Pacífico que, sim, é um país. Mesmo com cerca de 2.700 inscritos, o coordenador da seleção Victor Guimarães afirma que, devido à Copa do Mundo, o período de inscrição foi menor e a safra não foi tão boa quanto a de 2013. “Por isso, optamos por uma competitiva com várias facetas, de maneira muito concentrada, e mais forte”, explica.

Além de nomes como o francês Jean-Marie Straub – expoente fundamental do cinema político moderno – e a artista experimental Deborah Stratman, o curador afirma que a seleção internacional se destacou por uma grande quantidade de filmes lidando com o cinema como matéria plástica e sonora. Isso fez com que, além das obras na competitiva com essa pegada mais experimental e menos narrativa, a mostra paralela “Materialidades” fosse criada para abrigar a tendência. “São três seções de filmes que lidam com questões como ritmo, luz e cor”, diz Guimarães.

Já na competitiva nacional, o destaque foi a grande presença de filmes discutindo o engajamento político, mas dentro do cotidiano. “São obras que não levantam bandeiras, mas tentam falar de como essas questões aparecem no dia a dia, e como a câmera pode estar a serviço disso, sem ser uma coisa tão frontal”, explica Ana Siqueira, coordenadora da seleção brasileira.

Como exemplos, ela cita o curta “E”, de Alexandre Wahrhaftig, Helena Grama Ungaretti e Miguel Antunes Ramos, que mostra como estacionamentos se tornaram microcosmo da sociedade brasileira; e “Retrato N. 1 Povo Acordado e Suas 1000 Bandeiras”, em que Edu Ioschpe faz um recorte de cinco minutos filmados nas manifestações de junho de 2013.

Além da política, outro tema recorrente entre os cerca de 500 inscritos foi a presença de questões LGBTs – com destaque para a transexualidade, drags e travestis como no vencedor do Paulínia Film Festival “O Clube”, do carioca Allan Ribeiro – e da relação da câmera com o corpo. O resultado disso foi a criação da mostra paralela “Corpo” para abrigar as obras que abordam a temática.

Acima de tudo, porém, Siqueira argumenta que a safra deste ano reafirmou para ela o curta como o lugar da inventividade. “Gente que trabalha com muitos recursos e técnicas apuradas, e outros que usam imagens da festa de família, em lugares remotos sem tradição nenhuma, e ambos fazem filmes com uma força enorme. É um sentimento que não tenho com seleção de longas”, atesta.

E para quem atribui essa riqueza e diversidade à democratização dos meios de produção com o digital, a curadora responde com a receita para um bom curta. “É necessário muito mais que uma câmera digital para fazer um filme. Você precisa ter uma visão de mundo, ideias, rigor”.

Curta o festival

16º FestCurtasBH

Quando. De hoje a 28/9

Onde. Palácio das Artes – avenida Afonso Pena, 1.537, centro

Programação completa. www.festcurtasbh.com.br

Entrada gratuita

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