Vítimas do vai e vem

iG Minas Gerais |

O sinal não havia fechado, mas o homem parecia estar com pressa. Tentava atravessar. Seguia. Parava. Voltava para trás. Primeiro foi impedido pelos carros. Depois, pelos ônibus. Carros e ônibus de uma só vez. Mais carros. Mais ônibus. Motociclistas ziguezagueando entre as três pistas da avenida. Buzinas. E homem lá, com olhar aflito e passo apertado, tentando chegar ao seu destino. Naquela tarde não conseguiu. Não foi ao compromisso. Nem ao menos voltou para casa. Não beijou a mulher ou a namorada. Nem sequer despediu-se da mãe. Seu corpo ficou estendido no asfalto. Devia ter lá seus 40 e poucos anos. Pedestre. Atropelado a poucos metros de uma longa passarela. Não vi essa cena. Repasso aqui os relatos da Raquel. Eu me lembro bem quando ela chegou, trêmula, descrevendo com riqueza de detalhes o momento assustador. Ela não sabia o nome dele, nem mesmo se tinha família ou para onde iria. Mas se lembrava bem do rosto do homem. Os dois haviam descido do mesmo ônibus, minutos antes de ele ser arremessado por um carro de passeio, bater em outro veículo e acabar no chão. Dia desses, lembrei-me desse triste episódio presenciado pela Raquel. Eu esperava meu marido na porta de um supermercado nessa mesma avenida. Fiquei observando o vai e vem dos pedestres. Alguns aflitos, outros completamente desatentos... E sabe o que foi mais assustador? A certeza de que, para muitos, a passarela é um mero adereço. É preciso ficar claro que não considero o pedestre um vilão, apesar de, algumas vezes, ele mesmo colocar a própria vida em risco. Mas, e os motoristas? Quantos deles não colocam as próprias vidas na berlinda? Sem contar a vida de terceiros. A verdade é que a coisa está feia para todo lado. Quem circula no trânsito das grandes capitais brasileiras é simplesmente vítima. Da falta de educação e da falta de respeito. Ou seja, há bons e maus pedestres, assim como ótimos e péssimos motoristas. Ontem foi aberta a Semana Nacional do Trânsito com o enfoque no pedestre. A intenção é introduzir hábitos seguros no tráfego. Li que irão acontecer palestras, passeios ciclísticos, blitze educativas, oficinas para alunos e professores... Enfim, uma série de eventos. Acho louvável, mas ainda é pouco. Essa conscientização deveria ocorrer todos os dias do ano. Initerruptamente. Incessantemente. Só a educação pode mudar a cultura de um povo. E é urgente reeducar os brasileiros no trânsito. O que vemos hoje é uma terra de ninguém, onde as pessoas enlouquecem diariamente. Saem de casa calmas e se transformam pelo caminho. A insanidade pode surgir depois de uma fechada brusca pela direita ou após o sinal abrir e você perceber que o motorista da frente não arrancou porque fala ao celular. Sem contar os alucinados que encontramos dirigindo na contramão, embriagados ou sem carteira de habilitação. Pergunto quem nunca se irritou com um farol alto em vias iluminadas ou com o colega espertinho que para em fila dupla e também na fila de pedestre. Sem contar os apressados que invadem a pista exclusiva de ônibus e, depois, quando a via se afunila, se enfiam entre os educados que fizeram o processo correto. Há também aqueles que estacionam onde bem entendem, como se a rua fosse propriedade deles. Tudo isso em meio aos congestionamentos. O trânsito adoece. E, talvez, o único remédio para amenizar seus sintomas seja a educação.

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