Que novelão!

iG Minas Gerais |

Ilustração Acir Galvão
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Quais os ingredientes necessários para uma boa novela? Um casal de protagonistas que exale paixão, um tom de mistério que te envolva à trama, doses homeopáticas de humor em alguns personagens-chave e uma história instigante, dramática, carregada de romance, diversão e provocação, digna de horário nobre? Se a receita fosse simples assim, iriam chover mais que perfeitas produções por aí – até mesmo na Record. Mas não é nada fácil prender a atenção do telespectador hoje em dia. Ainda mais em tempos de internet. A fórmula básica tem que se misturar a uma produção impecável, ao figurino e à trilha sonora que te deixe de queixo caído, a uma direção diferenciada, que te prenda a atenção pela ousadia ou pelo trabalho cinematográfico. A parceria entre o diretor José Luiz Villamarim e o autor George Moura não é tão antiga, mas o que eles já fizeram juntos do ano passado pra cá já valeu o assegurado currículo global, vide “O Canto da Sereia” (2013), “Amores Roubados” (2014) e, por último, “O Rebu”, que acabou de acabar e o que mais fez foi impressionar.

Desde de “Avenida Brasil” eu não ficava tão preso a um folhetim. Tudo bem que não dá pra comparar as duas novelas, principalmente porque a de João Emanuel Carneiro foi unânime, um fenômeno da teledramaturgia –  pelo número de núcleos, pelo longo tempo de duração e pela trama amarrada e cheia de reviravoltas. Mas essa última novela das onze se destacou por características singulares, que a deixam ainda mais aplausível. A começar por uma curiosidade: como os autores e o diretor iriam prender o telespectador por 37 capítulos em um roteiro que não poderia sair da noite da festa em que aconteceu o assassinato de Bruno (Daniel de Oliveira), da manhã seguinte e de alguns flashbacks – diferentemente dos 112 capítulos da primeira versão da novela, de Bráulio Pedroso, em 1974? Pois prendeu. Confesso que, em alguns capítulos, achava que a trama não se desenrolava, que as investigações do delegado Pedroso (Marcos Palmeira) e da policial Rosa (Dira Paes) estavam lentas demais, mas a amarração da história foi perfeita, e pouquíssimos erros de continuidade foram notados.

Com a adaptação de George Moura e Sergio Goldemberg para os dias atuais, “cuidado” é a palavra mais acertada para a direção de José Luiz Villamarim. Desde a primeira cena, um exímio plano-sequência no auge da festa ao som de “Don’t Let Me Be Misunderstood”, do The Animals, até a mesma cena sendo repetida no capítulo final e dando total entendimento para a trama, o jeito cinematográfico levado para a TV encantou pela belíssima qualidade. Foram tomadas em diferentes ângulos, cortes que exaltavam o poder da mansão de Angela Mahler (Patrícia Pillar), isso sem contar a participação do elenco, que foi um show à parte.

O embate entre Angela e Braga (Tony Ramos) deixou o talento de dois veteranos ainda mais aflorado. A ambição e a ganância pelo poder forçaram os dois atores a papéis marcantes, a atuações fortes e maduras. Mas ver a angústia, o medo, a tristeza e o remorso de Duda (Sophie Charlotte), tão explícitos em uma jovem atriz, é de ficar paralisado. Ela esteve brilhante, em vários momentos. Quem assistiu à novela também morreu de simpatia por Maria Angélica (Camila Morgado), deu uma boa gargalhada com Vic Garcez (Vera Holtz) ou, entre um cigarro e outro, se embriagou com o tanto de uísque de Gilda (Cassia Kis Magro). Atrizes completamente entregues às suas personagens. Mas, segundo foi publicado na “Folha de S.Paulo”, as baixas audiências de “O Rebu” e “Saramandaia” fizeram a Globo repensar o jeito atemporal para se fazer um remake. Ambas encerraram suas passagens pela faixa das 23h na emissora com média de 15 pontos, talvez pela inconstância dos horários de exibição, o que não resultou em fidelização do público. Segundo o jornal, a próxima trama do horário será um folhetim original. Uma pena, já que “O Astro” e “Gabriela” também foram tão primorosas. Não dá pra entender o telespectador. Uma audiência tão baixa pra um novelão, o que esperar de um pastelão?

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