Na cidade de Brasília, uma terra em transe

iG Minas Gerais |

Brasília: é madrugada. Arriada sobre a cama, mal respirando – a cidade tem convivido com umidade relativa do ar inferior a 13% –, fico relembrando cenas de antigos faroestes. Cidades abandonadas do Meio-Oeste americano, durante a corrida para o ouro da Califórnia, onde se encontravam frente a frente bandido e mocinho, ambos com as mãos sobre os respectivos coldres, prontos para atirar ao primeiro movimento do outro. Poeira suspensa no ar. Vento fazendo rolar feixes de vegetação ressecada sobre o solo pedregoso e árido. Céu de um azul cortante. Assim acontecia nas matinês a que eu, embevecida, assistia quando criança. Só que da plateia, no escuro do cinema, nenhum de nós podia imaginar como as pessoas sofrem quando são obrigadas a conviver com essa aridez que ora também afeta o Centro-Oeste e o Sudeste do Brasil. Num salto, ligo a TV para tentar me distrair com imagens mais amenas, mas dou de cara com o documentário “Os Carvoeiros”, verdadeira obra-prima – retratando a vida da população infantil e adulta do Cerrado, dedicada à extração do carvão vegetal. Miséria absoluta. O único nome que para mim se destaca, na longa lista de produtores, é o de Ronaldo Nazário de Lima, o Fenômeno. Já no início vemos o famoso “correntão” em ação. Cenas que põem a nu a extrema miséria de uma legião de brasileiros, vivendo no mais completo abandono, entregues à própria sorte, crianças, velhos, mulheres batendo roupa em baldes tão imundos quanto a imundície que cerca aquela gente. Gente?! Na verdade, o título deste artigo deveria ser “Brasil: piração nos trópicos”. De uma hora para outra, faz um frio que não se esperava mais; ao invés das brisas propícias para soltar pipas, no final do inverno, verdadeiras tempestades de vento surpreendem Manaus, Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Em direção à floresta, segue impetuosa a abertura de novas fronteiras para as extensas plantações de soja e cana-de-açúcar, para os pastos abertos onde o boi arrasa tudo, se não nos lembrarmos do corte insano da madeira no Pará e em pleno Amazonas. Ano sim, ano não, “El Niño” ou “La Niña” deixam muito para trás o tempo em que havia clima para diferentes colheitas: chupava-se jabuticaba em outubro e novembro, manga no mês de janeiro, em maio vinham as deliciosas laranjas, e o mês de setembro se enchia dos sons das tanajuras, que a gente, criança, espetava num pedaço de palito só para ouvir o desespero dos bichinhos. Até cigarras já não cantam como antigamente, chamando chuva, porque chuva aliviava a terra e a preparava para o plantio em março. Agora, chuva não há. Um dia aqui, no Brasil, já foi assim. A ganância do lucro desmedido vai arrasando tudo, até que sejamos tragados pela resposta da natureza desvairada. Leio que climatólogos se encontrarão no Rio para discutir o tema. Já estão para lá de preocupados. Temo que não haja mais tempo para implementação de eventuais soluções factíveis. Temo que não haja mais tempo para, nostalgicamente, dizer que sobrou apenas a saudade do paraíso.

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