Gabrielli: 'Razões' para indicação de Paulo Roberto são do governo

Ex-presidente da estatal diz que governo teve suas "motivações"

iG Minas Gerais | DA REDAÇÃO |

O ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli disse ontem que "as razões e as motivações" para a indicação de Paulo Roberto Costa para a diretoria de Abastecimento da estatal, posto que ocupou entre 2004 e 2012, são "problemas internos do governo". A afirmação foi feita em videoconferência, durante depoimento à Justiça num dos vários processos abertos após a Operação Lava Jato, da Polícia Federal.

Costa é alvo dessa operação. Ele é suspeito de desviar dinheiro de contratos da estatal para abastecer caixas de políticos ligados ao governo federal. É funcionário de carreira da Petrobras, mas ascendeu à diretoria de Abastecimento durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Um dos empreendimentos sob suspeita é a construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Orçada em R$ 2,5 bilhões, ela já teria consumido R$ 20 bilhões, segundo a PF.

O ex-diretor, que está preso, está depondo desde 29 de agosto em regime de delação premiada, no qual conta o que sabe em troca de redução de pena ou perdão judicial. Ele apontou os nomes de pelo menos 32 deputados e senadores e de um governador como beneficiados do suposto esquema de propinas.

Na semana passada, a candidata à Presidência do PSB, Marina Silva, declarou em sabatina do jornal O Globo que os ataques de sua rival, Dilma Rousseff (PT), são uma "cortina de fumaça" para encobrir denúncias envolvendo a Petrobras. Ela acusou o PT de colocar um diretor na Petrobras para "assaltar os cofres" da estatal. Dilma, que integrou e presidiu o Conselho de Administração, reagiu e classificou a declaração de "leviana e inconsequente".

A PF sustenta que Costa chegou ao posto por influência do ex-deputado José Janene (PP-PR), morto em 2010. Janene, acusado de envolvimento com o mensalão federal, era sócio do doleiro Alberto Youssef, principal alvo da Operação Lava Jato. Gabrielli foi ouvido, inclusive, como testemunha arrolada pela defesa de Youssef.

O ponto central do depoimento de Gabrielli, que comandou a Petrobras de 2005 a 2012, foi a indicação de Costa para uma das mais importantes cadeiras da estatal. Quando questionado sobre o tema, respondeu: "O presidente da Petrobras é comunicado, as razões e motivações são problemas internos do governo. O processo de indicação é exclusivo do Conselho de Administração, geralmente decidido no âmbito do sócio majoritário, que é o governo", disse. A audiência de Gabrielli foi realizada por videoconferência. Ele falou de Salvador para autoridades de Curitiba. Atualmente, Gabrielli ocupa o cargo de secretário de Estado do Planejamento da Bahia.

O ex-presidente da Petrobras disse que não tinha conhecimento de que Costa fora nomeado por indicação de Janene. "Isso circulou na imprensa, mas eu não participei de nenhum processo desse tipo", afirmou. "A existência de influência política ou não ocorre no âmbito do governo, não no âmbito da Petrobrás. Eu não tive nenhum contato com o sr. Janene."

Foi perguntado a Gabrielli se as nomeações não têm de passar pelo crivo do Conselho de Administração. "No Conselho de Administração é apresentado nome. O Paulo Roberto Costa era técnico de carreira com uma tradição na companhia. Vinha da área de exploração e produção, não era da de refino, foi apresentado pelo conselho e foi aprovado pelo conselho."

Um advogado de Youssef perguntou a Gabrielli sobre as suspeitas de superfaturamento da Abreu e Lima e a denúncia de que uma quadrilha se instalou na Petrobras. "Era possível que um diretor só, Paulo Roberto Costa, no caso, detivesse poderes para comandar o processo de licitação para beneficiar uma empresa?", indagou o defensor do doleiro. "Todas as decisões sobre projetos e contratos acima de R$ 32 milhões são autorizadas pela diretoria", respondeu Gabrielli. "As decisões abaixo (daquele valor) têm procedimentos, evidentemente que não há decisão individual do diretor, porque isso têm que passar por vários comitês e grupos de trabalho e, portanto, acredito que dificilmente um diretor, individualmente, possa tomar decisões."

AGÊNCIA ESTADO

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