Prosódia através de objetos

Dupla O Grivo projeta sons produzidos por diferentes artefatos mecânicos na exposição “Objetos de Medida”

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Mescla. Exposição une elementos mecânicos e eletrônicos para produção de sons, o principal elemento da mais recente obra do duo
Débora de Oliveira
Mescla. Exposição une elementos mecânicos e eletrônicos para produção de sons, o principal elemento da mais recente obra do duo

Desde seus primeiros trabalhos apresentados nos idos de 1990, O Grivo, formado pelos artistas musicais Nelson Soares e Marcos Moreira Marcos, já chamava atenção por sua apurada pesquisa sobre linguagem musical e pela inventividade na estruturação de seus trabalhos, sejam autorais ou não. Essa essência continua operante e, portanto, faz parte da exposição “Objetos de Medida”, aberta para visitação a partir desta terça na galeria Genesco Murta, no Palácio das Artes.

O que muda agora é o foco da pesquisa. Desta vez, a dupla vasculha o movimento de sons por meio de artefatos construídos por eles mesmos. “A ideia para conceber essa exposição não surgiu de imediato. Depois de muita pesquisa, a remodelamos e ela ficou bastante clara”, comenta Moreira.

As descobertas vieram por meio de experimentações de captura de sons vindos de simples ações. Em uma delas, por exemplo, o computador da dupla reproduz o som que acontece quando um nó é feito em uma linha; em outro, o som gravado provém do contato entre dois fios elétricos.

Para replicar esses e outros sons, O Grivo criou artefatos próprios utilizando diversos materiais dos quais sobressaem madeira, motores elétricos e polias. “Trabalhamos com esses utensílios desde nossa primeira exposição e, com o tempo, aprendemos a montar nossos próprios aparatos”, conta Moreira.

O resultado é uma exposição formada por quatro grandes peças que capturam e replicam sons na galeria de forma programada e que funcionam em sincronia com dispositivos de iluminação. “A apresentação completa dura cerca de 15 minutos”, garante Moreira ao afirmar que o roteiro pré-determinado não implica repetição: “A composição completa conta com 50 sons que são escolhidos aleatoriamente a cada ciclo”.

Assim, forma-se uma grande instalação que reforça a pesquisa de sons de autoria da dupla em cenários que não sejam os de concertos e apresenta possibilidade de experimentação tanto sonora quanta estética para o público.

Com todos esses aparelhos, o duo mostra a onipresença do ritmo em todos os lugares, inclusive na ausência dele. “É exatamente no intervalo entre os sons que está o vazio, o silêncio. Sem ele não é possível ter ritmo. Mas não criamos um objetivo específico para exposição, estamos abertos a interpretações”, diz Moreira.

Trajetória. Outro detalhe que chama atenção na exposição e reforça seu aspecto cinético é o financiamento viabilizado por meio do Filme em Minas, edital de estímulo para obras cinematográficas. “Fomos aprovados na categoria Formato Livre (destinado a projetos inéditos que investigam mídias digitais e trabalham com convergência de linguagens) porque a exposição é uma experiência audiovisual”, defende Moreira.

Para ele, o edital tem sido importante por viabilizar não só obras cinematográficas, mas projetos que envolvam imagens e movimento, como o do Grivo, e o por priorizar o inédito. “Acho importante pois o Filme Minas proporciona que projetos novos e importantes para o desenvolvimento humano sejam realizados”, opina.

Paradoxalmente, o duo almeja no momento ter mais oportunidade de apresentar seus trabalhos de concertos, os quais desenvolvem há anos. “Podemos nos debruçar mais no aspecto musical em concertos e conseguir mais sofisticação dos sons. No entanto, é complicado realizar esses trabalhos. Para você ter uma ideia, neste ano vamos nos apresentar somente uma vez, na Bahia”, lamenta Moreira.

Agenda

O quê. Exposição “Objetos em Medida”.

Quando. Desta terça a 16 de novembro. Visitação: terça a sábado, das 9h às 21h, e domingo, das 15h às 21h.

Onde. Galeria Genesco Murta – Palácio das Artes (av.Afonso Pena, 1.537, centro)

Quanto. Entrada franca

Prêmios

O Grivo já recebeu:  o 25º Salão de Arte de Belo Horizonte, Prêmio Especial do Júri; o 4º Prêmio Cultural Sérgio Motta, em São Paulo e o Formations, Sound Art Work, em dLux Media Arts, Sidney, Austrália.

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