Mestre de muitos universos

Com todos os seus romances nomeados ao Man Booker Prize, David Mitchell se firma como um grande escritor

iG Minas Gerais | Alexandra Alter |

David Mitchell diz que é um romancista de vilarejo e que tem aversão às pessoas que vão atrás dele
Eoin O'Conaill/The New York Times
David Mitchell diz que é um romancista de vilarejo e que tem aversão às pessoas que vão atrás dele

Nova York, EUA. Se você viajasse para uma pequena paróquia nos arredores da cidade costeira de Clonakilty, na Irlanda, e pedisse para um dos moradores apresentá-lo ao escritor local, ele certamente o levaria a David Mitchell. “Sou o romancista do vilarejo”, afirmou Mitchell em uma entrevista recente pelo telefone. “Eu sou o único por aqui”.

A solidão combina com ele. “Tenho certa aversão às pessoas que vêm atrás de mim”, afirmou.

Sua paranoia pode ser justificada. Na última década, Mitchell deixou de ser um autor cult com um grupo pequeno mas fiel de fãs, e se tornou uma grande figura literária cuja obra é comparada à de Nabokov, Pynchon e Dostoievsky. Cinco dos seus romances foram nomeados ao Man Booker Prize, incluindo o mais recente, “The Bone Clocks”. Seu livro inovador de 2004, “Atlas das Nuvens”, vendeu um milhão de cópias na América do Norte e foi transformado em filme.

Especialistas acadêmicos e superfãs leem suas obras com a intensidade de um estudante do talmude, e se reúnem em conferências com David Mitchell, incluindo mesas redondas sobre assuntos como “Narratologia e o Multiverso de Mitchell”.

“Multiverso” pode parecer um termo grandioso e metafísico demais para um romancista, mas fãs e especialistas dizem que esse é um bom termo para definir os livros de Mitchell, que discorrem sobre séculos, continentes e gêneros completamente diferentes, muitas vezes na mesma obra.

“‘Universo’ não é um termo abrangente o bastante, já que cada livro mostra como o mundo dele é maior, expandindo os limites do que acreditamos serem suas histórias”, afirmou David Ebershoff, editor de Mitchell na Random House. “Seu novo trabalho representa a primeira vez em que muitos de seus leitores poderão juntar as peças dos outros livros”.

“The Bone Clocks”, lançado em setembro, é a obra mais ambiciosa de Mitchell, e fornece uma chave para desvendar o quebra-cabeças narrativo – uma espécie de macronovela que tem sido construída ao longo dos outros romances. Personagens dos livros anteriores aparecem em papeis centrais que iluminam de forma reveladora suas encarnações anteriores. Temas e motivos que ecoam em seus livros – sobrevivência, mortalidade, os perigos do poder e a possibilidade do renascimento – são amplificados e refinados.

“Da mesma forma que meus romances são construídos como novelas hiperligadas, estou produzindo o que chamo de um ‘uberlivro’ com todas elas, porque sou um megalomaníaco e gosto da ideia de fazer coisas enormes”, afirmou Mitchell.

“The Bone Clocks” começa em 1984 na Inglaterra, onde uma adolescente rebelde, Holly Sykes, foge de casa e acaba dentro de uma guerra oculta que vem acontecendo há séculos. À moda clássica de Mitchell, a narrativa transgride o tempo, o espaço e o gênero literário, pulando da Inglaterra dos anos 1980 para o Iraque contemporâneo, os Alpes Suíços medievais, as planícies da Austrália no século XIX, uma casa em Manhattan que funciona como um portal metafísico, e finalmente um vilarejo irlandês em 2043, onde a idosa Holly luta para proteger seus netos de uma catástrofe ambiental. À medida que a história progride, Holly descobre que não passa de um peão em uma batalha entre dois grupos de imortais, os Horologistas, que reencarnam ao se apossarem de novos corpos, e os Ancoritas, que permanecem eternamente jovens, alimentando-se dos vivos.

Mitchell, 45, afirma que “The Bone Clocks” surgiu de sua preocupação com a mortalidade.

“A origem da história foi minha crise de meia idade e a exploração de tudo que eu estaria disposto a fazer para enganar a morte”, afirmou Mitchell, que é inglês e vive na Irlanda com a esposa e os dois filhos.

Livros “Ghostwritten” (1999) “number9dream” (2001) “Cloud Atlas” (2004) “Menino de Lugar Nenhum” * (2006) “The Thousand Autumns of Jacob de Zoet” (2010) “The Bone Clocks” (2014) *Único romance do autor publicado no Brasil

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