Em busca do sentido da vida

Cineasta português filma documentário que conta com presenças de Laerte e de Valter Hugo Mãe, entre outros

iG Minas Gerais |

Morte. Diretor Miguel Gonçalves Mendes volta a abordar o tema da morte em novo documentário
Maria Caetano / Divulgação
Morte. Diretor Miguel Gonçalves Mendes volta a abordar o tema da morte em novo documentário

São Paulo. Numa mesa repleta de sushi numa cobertura nos Jardins, região nobre de São Paulo, o escritor português Valter Hugo Mãe, 42, e o/a cartunista da “Folha de S.Paulo” Laerte, 63 – que prefere ser tratada pela segunda forma – discutem sobre aborto, suicídio e felicidade. “Deve ter sido uma dor desgraçada nascer”, diz a cartunista, de vestido preto e salto alto. “Mesmo sendo português, fadista, eu iria querer nascer”, responde o escritor, de tênis, blazer e camiseta da banda britânica The Smiths. Esse é um dos cenários do documentário “O Sentido da Vida”, novo projeto do diretor português Miguel Gonçalves Mendes (de “José e Pilar”), 36, que ele mesmo chama de pesadelo megalômano.

A proposta do longa é acompanhar a jornada ao redor do mundo de uma pessoa com uma doença incurável, que ainda não foi escolhida. Antes de morrer, ele vai ter de ver o mundo pela última vez, em sua esquizofrenia: na beleza e no que tem de horrível, explica Mendes. “Esse filme é quase uma cápsula do tempo desse nosso mundo contemporâneo”, diz.

Intercalando com a viagem, haverá cenas do cotidiano de sete personalidades, como Hugo Mãe, o juiz espanhol Baltasar Garzón, que emitiu ordem de prisão ao ditador chileno Pinochet, e o músico islandês Hilmar Örn Hilmarsson, mentor de Björk. “São heróis dos dias de hoje, funcionam como arquétipos no filme: o autor, o músico, o político. É como se fossem o retrato geral da humanidade”, diz Mendes. Orçada em aproximadamente R$ 4,4 milhões, a coprodução que envolve Brasil, Portugal, Espanha e Islândia deve ficar pronta em 2016.

Laerte diz não se intimidar com a proposta do filme. “Não tenho uma resposta, mas é algo sempre colocado, principalmente para quem está à beira de deixar de existir. Não conheço quem tenha passado por isso e não tido uma crise”, destaca. A cartunista diz que hoje não busca mais sentido na vida. “Já fui atrás quando era adolescente e místico”, aponta. “A verdade é que a existência não tem justificativa alguma”, completa.

Mendes mais uma vez volta a abordar o tema da morte, reflexão que já permeava “José e Pilar” (2010), sobre o escritor português José Saramago (1922-2010). “É porque tenho pânico dela”, justifica a persistência do tema. O cineasta ainda não selecionou a pessoa que deverá fazer o trajeto, mas definiu que será um brasileiro (“porque não pensa só no passado, como o português”) e que a doença deve ser a paramiloidose, síndrome genética rara propagada pelos lusitanos na época dos descobrimentos. A jornada refará o percurso histórico da paramiloidose, que começa em Portugal e termina na Ilha Decepção, na Antártida. Aliás, o nome desse destino final remete ao que o cineasta espera sentir após toda essa busca pelo sentido da vida: decepção.

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