Criar identificação para depois desconstruir

Por meio de um rasgo no realismo – a partir da queima do único ventilador, que deflagra um desvio para o surreal

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

‘Conselho...’ é comédia política com as marcas da Cia. dos Atores
Dalton Valerio
‘Conselho...’ é comédia política com as marcas da Cia. dos Atores

Não é tão comum encontrar espetáculos que joguem luz sobre o sistema de ensino. Coincidentemente, o público de Belo Horizonte tem no momento dois exemplares a partir dos quais pensar a questão. Além do “Conselho de Classe” da Cia. dos Atores, em cartaz nesta terça no Teatro Francisco Nunes; continua no CCBB a temporada de “Dente de Leão”, novo trabalho do grupo Espanca! que se envereda pela mesma seara.  

A urgência de se repensar a função e os sentidos da escola, presente em ambas criações, impulsiona o debate promovido nesta terça pelo Fórum da Mostra Artística CIT-Ecum – Teatros da América Latina Módulo I. Os professores Shirley Miranda e Juarez Dayrell, da Faculdade de Educação da UFMG, encontram a diretora Bel Garcia para conversarem sobre o tema A Escola em Crise, no Teatro Francisco Nunes, às 20h20 (entre a primeira e a segunda sessão de “Conselho de Classe”).

“A escola está em uma crise bastante aguda. E é preciso tentar encontrar uma saída para redescobrir seu sentido na sociedade, o que seriam possibilidades de superação e reinvenção de uma instituição como essa”, comenta o curador do fórum e professor da Escola de Belas Artes da UFMG, Fernando Mencarelli.

Enquanto a mesa abre a discussão pública sobre o tema, o espetáculo trabalha na chave de estabelecer uma identificação prévia com o espectador. Para isso, e considerando a temática, a Companhia dos Atores apostou na abordagem realista inicial e com traços cômicos. “A gente chama de comédia política”, diz a diretora Bel Garcia. “A companhia sempre trabalhou em cima de humor e música, elementos que aproximam, e, no meio da risada, pode vir a vergonha do que se está rindo”.

Por meio de um rasgo no realismo – a partir da queima do único ventilador, que deflagra um desvio para o surreal – manifesta-se a desconstrução, característica emblemática nos 25 anos de trabalho da Cia. dos Atores. “Na verdade, é muito mais fácil desconstruir um clássico que já está estabelecido, como ‘Hamlet’, desde 1.600”, comenta a diretora, em referência à obra-prima do grupo, “Ensaio.Hamlet”. “Quando se pega uma peça inédita é mais difícil porque temos que construir primeiro para depois desconstruir”.

Ainda que o ineditismo do texto represente um desafio nesse sentido, Bel diz que “está tudo lá”. “Marcas nossas de outros espetáculos, a desconstrução, as passagens de cena, o equilíbrio do humor com o dramático”, lista.

E apesar da facilidade de identificação com o tema – afinal, é quase certo que todo espectador é ou foi aluno um dia –, a companhia teve dificuldade em pesquisar o contexto que recria. “Não conseguimos entrar em nenhuma escola pública carioca”, diz Bel, “Tentamos, mas foi perto de uma greve e tinha uma burocracia muito grande”, explica.

Para ela, “não há muita diferença entre assistir a uma aula e a uma peça de teatro”. “Os ouvidos precisam estar bem abertos, a reflexão crítica deve ser estimulada, e as diferenças de pontos de vista devem ser levadas em consideração e enriquecer a discussão”.

Responsabilidade

“E o que você quer que faça? Que eu salve o Brasil com um toco de giz na mão? (...) Com essas salas superlotadas, você quer que eu decore o nome de todo mundo e ainda dê conta daquilo que nem mesmo a família deles consegue dar?”

Trecho de “Conselho de Classe”

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