Um delírio fantástico de porão

“Artistas geniais surgindo ao mesmo tempo sem que ninguém de fora notasse, até o teatro abrir portas e a cabeça do pessoal”

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

“Gravamos o primeiro disco do Itamar Assumpção entre 0h e 5h porque era o horário mais barato do estúdio”
Youtube/Reprodução
“Gravamos o primeiro disco do Itamar Assumpção entre 0h e 5h porque era o horário mais barato do estúdio”

 

Após lançar o filme “Lira Paulistana, Vanguarda Paulista”, no ano passado, o diretor Riba de Castro assina agora o livro “Lira Paulistana”, que expõe os bastidores de um dos movimentos artísticos mais importantes de São Paulo entre 1979 e 1986. Na publicação, ele conta como um porão no bairro Pinheiros revelou Itamar Assumpção, Tetê Espíndola e, mais tarde, os roqueiros dos Titãs

O documentário foi lançado primeiro do que o livro propositalmente? Um complementa o outro de alguma forma? Na verdade, em 2003, recebi a notícia da morte do Itamar Assumpção por e-mail e aquilo me abalou profundamente. Ele é o cara que representa o Teatro Lira Paulistana pra mim, embora tudo o que aconteceu naquele porão entre 1979 e 1986 não possa ser resumido em apenas uma pessoa. Eu estava radicado em Madri e decidi revirar meus baús à procura de histórias, uma espécie de nostalgia daquele tempo, e tive a ideia do livro para contar os bastidores. No meio disso tudo, vi que muita gente tinha coisas importantes a falar, depois de quase 30 anos de fundação do Lira. Como fazer um livro é muito caro, o filme veio primeiro e foi até melhor. Porque na pesquisa do documentário, consegui algumas raridades, como uma foto do Arnaldo Antunes nos anos 70 irreconhecível, cabeludo, muito magro, se apresentando no Lira. O Fernando Meirelles, que na época do Lira era um menino de 23 anos começando a filmar, também cedeu o arquivo dele.

O filme é mais calcado em depoimentos de gente importante que passou pelo Lira Paulistana. Mas no livro você conta com suas próprias palavras como tudo começou? Afinal, qual era o sentimento em 1979 ao alugar um porão para fazer arte? Isso foi engraçado porque era um espaço despretensioso demais para virar o que virou. O Lira era literalmente um porão de 400 m², onde cabiam, no máximo, 200 pessoas – sendo que, com 50, já dava a sensação de estar lotado. Todo em madeira, com uma estrutura funda de teatro de arena, era surreal, lindo, sujo no bom sentido e muito underground. E, na época, não tinha nenhum lugar alternativo em São Paulo, só casas para 1.500 pessoas, o que impedia artistas menores de mostrar seu trabalho. Lembro que eu estava com um filme inédito no Brasil, “O Homem que Virou Suco” (1981), de João Batista de Andrade, que tinha ganhado um prêmio em Moscou, mas ninguém conhecia por aqui. Aí, um amigo cineasta, o Ivo Branco, me indicou o Teatro Lira, que ainda engatinhava, para passar o filme. Quando entrei lá a primeira vez, não quis sair. Me tornei sócio em pouco tempo ao lado de Fernando Alexandre, Wilson Souto Jr., Fernando Rozo Perez, Plínio Chaves e Chico Pardal. Esse era o time. Não tínhamos as mesmas ideias artísticas, pelo contrário, mas sentia a mesma excitação por toda essa diversidade que a gente sabia que era genial. Isso é que fez o Lira acontecer: artistas geniais surgindo ao mesmo tempo, sem que ninguém de fora notasse até o teatro abrir as portas e a cabeça do pessoal.

Na porta do Lira tinha aquela frase de Oswald de Andrade: “A felicidade do homem é uma felicidade guerreira. Viva a rapaziada. O gênio é uma grande besteira”. Esse era o espírito do Lira? Unir a diversidade? Isso foi um norte que nós achamos para resumir as diferenças, que eram ao mesmo tempo muito distantes uma das outras, mas com uma característica em comum: todo mundo que era atraído pelo Lira se expressava muito bem e falava pelos cotovelos. É só você olhar o resto da turma: o Grupo Rumo fazia a palavra cantada, o Itamar Assumpção era a personificação da fala desembolada, o Arrigo Barnabé, idem, apesar ser diferentes.

O livro fala de bastidores. Quais lembranças dessas histórias do Lira são mais marcantes para você? Primeiro, a gente tem que pontuar que o Lira é irmão siamês da Vanguarda Paulista, um movimento de gente que não tocava em grandes casas, gente independente como Tetê Espíndola, Língua de Trapo, Cida Moreira, Premeditando o Breque com suas crônicas de Sampa, Arrigo Barnabé, que revolucionou a música depois da Tropicália, Grupo Paranga, Zé Eduardo Nazário, entre mais de 300 artistas que passaram pelo Lira apresentando uma produção cultural de alto nível. Segundo, não só para mim, mas o disco de estreia do Itamar Assumpção, “Beleléu, Leléu, Eu” (1980), lançado ao lado da banda Isca de Polícia, é considerado o primogênito do Lira. No livro, eu conto que a gente gravava entre 0h e 5h no estúdio Áudio Patrulha, do Zé Rodrix, porque era mais barato. O Itamar ficava pilhado, virando as madrugadas, mas era o que a gente podia fazer sem grana. Tínhamos um artista genial em mãos que ninguém conhecia, mas que estava em estúdio produzindo uma pérola, seu primeiro álbum, graças ao Lira. Além disso, os Titãs fizeram o primeiro show lá, em agosto de 1982. Lembro que a guitarra do Tony (Bellotto) estava muito mais alta que os outros instrumentos, Foi a primeira vez dos Titãs no palco.

Quando o Lira fechou as portas em 1986, houve algum sentimento de que não era a hora de acabar? Não sei afirmar ao certo. Acho que algumas coisas poderiam ter acontecido, sim. Eu penso assim: São Paulo é uma cidade dura, muito dura. Se o Lira fosse no Rio, até hoje ele estaria funcionando, como é com o Circo Voador, inaugurado dois anos depois do Lira. Mas o movimento cumpriu seu papel. Na época de fechar, o Jânio Quadros era prefeito da cidade e acabou com várias casas que estavam irregulares. Realmente a estrutura era ruim, tudo de madeira, velho, improvisado, alegaram que poderia ter risco de incêndio. Além disso, o Lira não estava em fase áurea mais. Porque as gravadoras começaram a frequentar o teatro para pescar as revelações. Assim, o Pena Schmidt, produtor da Continental na época, e que escreve um depoimento no livro, descobriu os Titãs, o Ultraje a Rigor, os Ratos de Porão. Toda uma galera rock n’ roll que gradativamente ocupou o Lira nos seus últimos suspiros de vida, substituindo artistas que estavam ganhando o país ou naturalmente eram solicitados para se apresentar no Masp, no Sesc Pompeia, em casas maiores, claro.

No livro, existem também um esforço em mostrar que o Lira não foi um movimento simples e nem apenas um teatro. Como o jornal, a gráfica e a gravadora que vocês criaram contribuiu para toda aquela efervescência? A gravadora e a gráfica deram mais vida ao Lira, porque a gente sempre precisava terceirizar as coisas. Porque dava para criar um mundo inteiramente novo no porão, mas não dava para reproduzí-lo sempre e necessariamente naquele nosso espaço. Nossa gravadora era para amparar artistas menores, mas tínhamos que pagar pela prensagem dos discos na Continental, por exemplo. A gráfica começou a funcionar em 1981, quase no nosso fim, tínhamos só um tinteiro e matriz improvisada de papel fotográfico. Mesmo assim, estreamos com o livro “Minorias”, lançando o cartunista Glauco, e, mais tarde, chegamos a editar o “Minorias nº2”, do Laerte, que não chegou a sair. O jornal, por sua vez, que durou bem pouco tempo, foi pioneiro em divulgar roteiros culturais em São Paulo, do subúrbio até a zona Sul. Mais tarde, quando o jornal “Lira Paulistana” acabou, a “Vejinha” surgiu na cidade e herdou isso da gente, no início dos anos 90.

Da geração de hoje, quem são os herdeiros do Lira? Coincidentemente, boa parte dos filhos do pessoal que fez essa história, faz sucesso hoje. A Tulipa Ruiz, filha do guitarrista Luiz Chagas, da banda Isca de Polícia; Anelis Assumpção, filha de Itamar; Mariana Aydar, filha de Mario Manga, que integrou o Premeditando o Breque, banda que voltou depois de 30 anos a fazer shows. Tá vendo? A arte é cíclica.

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