O vazio que matou valores e histórias

iG Minas Gerais |

Algumas coisas deveriam ser eternas ou ao menos evoluir infinitamente. Quem sabe ser invulneráveis, isentas da imbecilidade e crueza que vez e sempre assaltam a civilização. Existe alguma dúvida de que estamos mergulhados num oceano de imoralidades, indecências, indelicadezas? Ou que a cada dia nos esfriamos diante dos horrores que as mídias nos apresentam com a mesma tonalidade que falam da previsão do tempo? E o que dizer da indiferença de gerações que atropelam velhinhos em games e massacram árabes em jogos de guerra? Ou o contrário, sei lá... E eu buscando em algum lugar uma referência, um norte, uma indicação: “isso é normal!” Fazer sexo sem nem conhecer a pessoa, bêbado, drogado, fruto de uma balada muito doida é normal? E gritar, desobedecer, falar palavrão, agredir pais e idosos? E não tirar os olhos da tela do celular num encontro social? Ter que tomar todas para ter coragem de chegar em alguém? Marcar brigas em boates ou campos de futebol? Bater em professor? Fazer selfie até com o amigo do amigo do conhecido do primo do reserva do Cruzeiro? O certo é que nesse vazio esquisito em que vivemos, confesso que perdi a noção do certo e errado, do ridículo e do fantástico. Vagueio pelas ondas espumantes e poluídas do vácuo existencial que vai nos roubando mais que um tempo precioso da experiência de vida, vai nos esvaziando o entusiasmo, anestesiando o sentindo da vida, tirando o estímulo para que, a cada dia, saiamos da cama para escrevermos uma nova história. Assim imaginava a vida, assim vivi minha vida e continuo vivendo-a, e com espanto não percebo esta mesma disposição nos jovens e adultos que observo. Autômatos, andando ora pedestres ora prisioneiros de trânsitos infernais. Para, anda, anda, para. Ônibus, carro, metrô. Rostos fechados. Chegar em casa, filhos, comer, dormir. Trabalhar, conta pra pagar, trânsito, anda, para, casa. Fim-de-semana, fantasia, será ótimo, tomar todas, pegar todas, TV, futebol. Nada feito, Faustão,Dança dos Famosos, depressão, segunda brava, conta no vermelho. Tic, tac, tic, tac. E dá-lhe reclamar da vida. Entrar no Facebook, tuitar, fingir que é feliz e ver gente mais fingida ainda. Paquerar à distância, sabendo que nunca vai encontrá-la pois ela é do Nordeste, falta grana, e já mentiu tanto, fez tanto Photoshop, que o amor platônico de hoje faz mais mal que antigamente. Está a um teclado de distância e a anos luz da mentira virtual. Será que eu é que estou vendo a vida assim tão preto e branco, tão insípida, tão distante de valores como afeto, companheirismo, tempo para conversarmos sem os sons insuportáveis até do mudo de um celular? Será que é possível uma família ouvir uma mesma música sem que alguém use um headphone? Ou se interessem pelo mesmo filme num domingo a tarde? Que possam viajar juntos e curtir mesmos programas? Cara, eu adoraria ser zoado ao contar de forma engraçada meu primeiro beijo na boate Tom Marrom, ao som de Glória Gaynor, errando a boca e acertando o nariz! Imperdível!

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