Um teclado na mão, uma ideia na cabeça

Alta demanda por conteúdo nacional na TV a cabo cria uma avalanche de editais e chamadas abertas para roteiristas

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Paulo Tiefenthaler é ator e diretor do programa
FABIO MOTTA/AE
Paulo Tiefenthaler é ator e diretor do programa "Larica Total", do Canal Brasil

É o velho “conto de duas cidades” escrito por Charles Dickens no século XIX. Enquanto a TV aberta reluta em se reinventar, com remakes de novelas e programas que repetem formatos batidos com audiências cada vez menores, a TV paga brasileira se encontra em plena ascensão criativa e quantitativa. Atingindo cerca de 60 milhões de pessoas no país e sob o peso da enorme demanda criada pela lei 12.485 – que estabeleceu as cotas de conteúdo nacional nos canais – as programadoras não têm mais esperado pelo burocrático processo do financiamento público, oferecendo uma série de chamadas abertas e editais de seleção de roteiro próprios em busca da próxima grande ideia.

Que pode – por que não? – ser a sua. A única regra indispensável e fundamental, segundo todos os executivos consultados, é conhecer e assistir ao canal para o qual você vai apresentar seu projeto. Lembra quando sua mãe dizia que ver TV não ia te levar a lugar nenhum? Ela estava errada.

“Antes de mandar qualquer coisa, tem que ter passado um bom tempo no nosso site e vendo o canal para ter certeza de que não tem nada parecido no ar, mas que ainda assim a ideia tem nossa cara. O pior projeto é aquele coringa que eu vejo que um canal não aceitou, e a pessoa mandou igual pra gente”, afirma André Saddy, gerente de marketing e projetos do Canal Brasil. A emissora, que desenvolveu 45 programas (30 estreias e 15 novas temporadas) em 2014, foi uma das grandes beneficiadas pela lei ao ser classificada como canal “superbrasileiro”, obrigando sua inclusão nos pacotes básicos e passando de uma base de 3 para 16 milhões de assinantes.

Enviar um projeto de programa feminino ou jovem para o Canal Brasil, portanto, é uma péssima ideia porque a Globosat, programadora do canal, já tem o GNT e o Multishow voltados para esses públicos. “Há casos em que nos apresentam um especialista carismático – um veterinário, alguém que domina técnicas de sobrevivência ou um mecânico, por exemplo – e desenvolvemos o projeto a partir do que aquela pessoa pode nos oferecer de diferente e inusitado”, explica Roberto Martha, diretor de produção da Discovery Networks Brasil, que já finalizou 20 produções desde o início da lei 12.485 e atualmente tem dez em desenvolvimento.

A maioria das programadoras ainda exige que o criador esteja vinculado a uma produtora, mas alguns como o canal Brasil e o Universal aceitam propositores individuais. Nesses casos, o canal ajuda o roteirista a encontrar uma produtora interessada, como a O2, por exemplo. “Quando procuram a gente, não é apenas para um serviço de produção, mas também pela colaboração artística. E como na O2, os sócios acompanham de perto os projetos, muitas vezes passamos coisas boas por falta de tempo para se dedicar a eles”, justifica Andréa Barata Ribeiro, produtora executiva e sócia da O2, que produziu oito séries desde o início das cotas, contra apenas cinco nos 20 anos anteriores.

E se engana quem pensa que só grandes nomes como a O2 abrem as portas dos canais. A Filmes de Plástico, de Contagem, por exemplo, foi convidada pelo Canal Brasil a participar do edital, atualmente aberto, para seleção de projetos a serem financiados pelo Prodav 2 da Ancine. Para seu produtor executivo, Thiago Macedo Correia, porém, não basta os canais serem obrigados a veicular produção nacional. “Essa produção deve ser proposta de modo heterogêneo e desafiador, buscando levar o conteúdo das séries a um patamar de excelência que ainda precisamos alcançar. Caberia aos canais criar linhas para essas apresentações de conteúdo diversos, onde propostas de tamanho diferentes poderiam concorrer em ‘categorias’ diferentes. Algo como ocorre, por exemplo, com o Fundo Setorial do Audiovisual”, propõe.

Mas como lembra Sílvia Elias, diretora de conteúdo local da Turner International do Brasil – que, em 2013, produziu cerca de mil horas de conteúdo nacional em canais como o Cartoon Network e o TNT – o setor ainda carece de estrutura para responder à grande demanda gerada pela lei. “De um lado, são necessários mais e melhores profissionais; de outro, o governo precisa se organizar para dinamizar a liberação de recursos e, assim, acelerar o processo de produção”, pleiteia, revelando a sede de uma indústria em plena (r)evolução.

  Recursos para laboratórios são liberados A Ancine tem corrido para responder às demandas do mercado com os recursos do programa Brasil de Todas as Telas. No dia 20 de agosto, a agência publicou o edital para empresas interessadas em oferecer laboratórios de desenvolvimento de programas e formatos. Na mesma semana, foi divulgado o resultado preliminar das instituições aprovadas a oferecer núcleos criativos.   Mas a temporalidade idiossincrática das verbas públicas também causa dores de cabeça interessantes para os canais. “Vamos estrear agora programas aprovados no Fundo Setorial do Audiovisual de 2010. E vamos segurar porque ano que vem vão chegar outros do FSA de 2011, 2012 e 2013”, projeta André Saddy, do Canal Brasil.     Master Class Mais chances. Além das chamadas abertas, a Globosat oferece o Programa Globosat de Roteiristas. A segunda edição, em janeiro, foi ministrada pelo papa dos roteiros Robert McKee.  

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave