Pela expansão das possibilidades de ser no mundo

Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte foi dividido entre os dois atores de “Recusa”, que visitaram aldeia indígena

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Ao assumir perspectiva ameríndia, “Recusa” abre a percepção
Ao assumir perspectiva ameríndia, “Recusa” abre a percepção

Em paralelo à programação de espetáculos, a Mostra Artística Cit-Ecum 2014 promove um fórum que coloca em debate modos distintos de ser e de ver o mundo. Serão três mesas de discussão gratuitas a partir de temáticas abordadas nas peças “Recusa”, “Entrevista com Stella do Patrocínio” e “Conselho de Classe”, realizadas após as apresentações. A participação é aberta ao público geral e sujeita à lotação.

Os três espetáculos abordam questões emergentes nos movimentos sociais mais recentes: um desejo urgente por mudanças que passa por um olhar para além dos modelos que hoje pautam a vida em sociedade, em busca de novas soluções. A primeira mesa de discussão acontece hoje, às 20h40, na Funarte, sob o tema Artes e Cosmopolítica, com a presença das professoras Leda Martins e Ana Gomes, da UFMG, e da diretora de “Recusa”, Maria Thaís.

“Quando um trabalho como ‘Recusa’ coloca diante de nós outra forma de entender o mundo a partir do pensamento ameríndio como matriz, no eixo e na estrutura do espetáculo, faz parte desse movimento maior que expande o próprio sentido do político e do que é possível trazer para o cenário público”, observa o curador do fórum, Fernando Mencarelli.

Embora a perspectiva ameríndia sobre a cultura e a natureza tenha sua importância reconhecida socialmente, permanece periférica. “É fundamental que isso contamine a sensibilidade dos criadores e ganhe corpo no cenário artístico”, acredita Mencarelli. Para ele, esse deslocamento do olhar amplia a percepção. “Ao se abrir para essa outra mirada sobre o mundo, a gente relativiza o modelo que tem se tornado hegemônico e que empobrece as possibilidades de experiência nos nossos modos de ser e de viver”, diz.

A segunda mesa debate A Escola em Crise, na terça (16), às 20h20, no Teatro Francisco Nunes. Participam da conversa os professores Shirley Miranda e Juarez Dayrell, da UFMG, e a diretora Bel Garcia, da Cia. dos Atores, que traz o espetáculo “Conselho de Classe”.

“Talvez essa instituição, a escola, basilar na nossa sociedade por construir os modelos de convívio e de pensamento, seja também o espaço que evidencia a distância entre as transformações pelos quais a gente já passou na cultura, nos valores e formas de sociabilidade, e o que constitui nossos modelos”, analisa Mencarelli. “Tudo o que se passa hoje no âmbito da escola é laboratório fundamental para compreendermos o que precisamos fazer e não estamos nem mesmo conseguindo formular como problema”, crê.

Por fim, a mesa Nas Margens da Cidade une o professor Antonio Hildebrando (UFMG), a atriz Georgette Fadel, do espetáculo “Entrevista com Stella do Patrocínio”, além de Manu Pessoa e Rafael Bottaro, representantes do Espaço Comum Luiz Estrela, na quinta (18), às 20h20, no Teatro Espanca!.

“Entrevista...” problematiza justamente a exclusão de quem não segue o modelo considerado normal. Para o curador, faz-se o paralelo com Luiz Estrela, artista e morador de rua que foi assassinado em BH em 2013. “É um personagem fundamental aos debates da relação que a cidade estabelece com quem está à margem e como não tem sensibilidade para incluir essas diferenças. Isso acaba levando aos cenários mais violentos de exclusão total”, diz Mencarelli.

O teatro é lugar privilegiado para essas mudanças de perspectiva tanto por suas possibilidades como experiência coletiva e dialógica, oposta à individualização e ao isolamento comuns na sociedade, quanto pela liberdade e inventividade próprias da prática artística. “Acho que o teatro é uma espécie de laboratório de sociabilidades”, diz o curador.

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