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Espetáculos com artistas consagrados, mostras de cinema, artes plásticas... Eventos direcionados ao público adulto têm aberto cada vez mais espaço na programação para o público infantil da cidade

iG Minas Gerais | Giselle Ferreira |

Bebê interage com músico durante o “Concerto para Bebês”, atração da grade infantil do FIT
Musicalmente/divulgação
Bebê interage com músico durante o “Concerto para Bebês”, atração da grade infantil do FIT
“A criança está disponível para a poesia. Ao ponto de poema. A criança ainda não sabe o comportamento das coisas. E pode inventar. Pode botar aflição nas pedras e assim por diante. As crianças não sabem que pedra não tem aflição ou se os peixes dão flor”, disse certa vez Manoel de Barros, 97.   Criança que optou por não crescer, o poeta mato-grossense é o escritor das coisas mínimas e desimportantes e faz arte como fazem as crianças: sem esforço. Se o universo da infância é o lúdico, quem há de negar que a arte é uma das linguagens que tornam mais fácil o acesso a esse mesmo universo? Nesse sentido, há que se comemorar. Grandes eventos culturais da cidade têm dedicado parte de sua programação à garotada. FIT, Virada Cultural e Anima Mundi versaram por este caminho. Neste domingo (14), um palco do Natura Musical – o da praça da Liberdade – será dedicado exclusivamente aos pequenos, com direito a uma minibalada do DJ Anderson Noise e show do guitarrista Edgard Scandurra em seu projeto Pequeno Cidadão.   E a partir do próximo sábado (20), a galeria Alberto da Veiga Guignard, do Palácio das Artes, recebe “Arte À Primeira Vista: Páginas de uma História” dedicada ao público infantil. A mostra reúne obras de artistas plásticos de grande prestígio, como Lygia Clark, Mira Schendel, Frans Krajcberg, Leonilson, Regina Silveira e Geraldo de Barros.   Nesse novo cenário da programação cultural da cidade ganham todos: os pais que passam a ter opções de lazer que conjugam diversão e aprendizado; e os pequenos que têm a oportunidade de tomar contato com a arte que passa ao largo do circuitão comercial e de produções popularíssimas como Peppa Pig e Galinha Pintadinha.   Renata Sant’Anna, uma das curadoras de “Arte À Primeira Vista”, acredita que a crescente programação cultural infantil vem da “vontade de ocupar a criança com atividades e produtos menos pasteurizados e mais educativos”.   Para ela, que além de artista e curadora é mãe de duas meninas, é importantíssimo oferecer formação cultural aos pequenos. “Isso cresce com eles, gera curiosidade desde cedo, alimenta conhecimento de mundo e consolida um olhar crítico. Toda essa onda também é legal por abalar um pouco os modos de pensar o lugar da criança, já que ela, ultimamente, não cresce na rua. Acaba que a arte assume esse lugar do encontro”, comenta Renata, que divide a curadoria da mostra com Valquíria Prates.   Arte educação   Curadora das primeiras exposições de Picasso e Tarsila do Amaral para crianças em São Paulo, em 1992, Renata acredita que se hoje as galerias batem recordes de público e chegam a ter horas de fila, é porque “esses adultos são fruto de um trabalho de valorização da arte educação, que teve uma guinada na década de 80” – ao que a psicoterapeuta, pedagoga e especialista em arte educação Maria Márcia Verona faz coro. “A linguagem cultural e artística é uma que fala diretamente à criança. Quando os meninos são colocados em contato com a arte, eles aprendem o mundo exterior de uma forma inteira, a apreensão pela brincadeira é muito mais rápida e sólida do que numa aula, por exemplo”, afirma.    Para Maria, até os 7 anos o toque e o tato são ótimos professores. “Além de ser um outro tipo de sociabilização, inclusive com a família, a arte facilita na vivência da criança com o próprio corpo. Às vezes, os pais ficam muito focados no ‘ler e escrever’, mas antes de aprender os signos, a meninada precisa pular, dançar, cantar, pintar, brincar, correr”, avalia.    As nossas plateias do futuro   É unânime a ideia de que a palavra de ordem da vez seja educação. São as bases para a formação de crianças críticas e de uma futura plateia que têm norteado os curadores e produtores de eventos infantis mais apurados e cuidadosos. “A gente sabe que não vai a lugar nenhum se não mexer nisso. Nada é mais óbvio e eficiente do que tentar trabalhar a base, que é a educação. O Saci é uma gotinha no oceano: fazemos cultura para ser uma alternativa ao que está nas prateleiras. A nossa arte não é o fim em si, mas sim uma condução pra nos levar a ‘n’ possibilidades de interação da criança com o próximo, consigo mesmo, com os espaços públicos e com a própria arte”, comenta a idealizadora do Festival Saci – Sociabilização, Arte e Cultura na Infância, Mônica Simões.   “Especialmente num país em que o ensino de arte contemporânea só vai até a Semana de Arte de 1922, faz-se necessário que outras linguagens preencham a lacuna que a escola deixa”, argumenta a artista e curadora da mostra “Arte à Primeira Vista: Páginas de uma História”, Renata Sant’Anna.   A professora de artes Cristiane Leite, 26, mãe de Isabelle, de 1 ano e meio, concorda e acrescenta que é “interessantíssimo que BH esteja entrando verdadeiramente no circuito da arte agora, principalmente o infantil. No Brasil, em geral, não existe muito a cultura de museu, por exemplo. Talvez até por isso falte muita iniciativa dos pais, também. Muitos dos meus alunos já foram ao Louvre, mas nunca foram ao Centro Cultural Banco do Brasil (na praça da Liberdade). Muita gente não digere a cultura e não suporta que os filhos cheguem da escola sujos de tinta”, problematiza. “Aqui tem muito a coisa do ‘não toque, não fale’; os espaços coibem demais as crianças. Levei a Isabelle ao Sebastião Salgado (a exposição do fotógrafo, “Gênesis”, esteve recentemente no Palácio das Artes) e as pessoas se incomodaram com a presença de um bebê. A gente teve que se retirar”, conta, revelando a esperança de que as nossas futuras plateias sejam mais generosas e abertas.   Programa em família   Já Raíssa Braga, 25, mãe de Céu, de 1 ano, passou pela mesma exposição sem, no entanto, enfrentar resistências do público. E aos incrédulos de que faça sentido a uma criança tão nova numa mostra de fotografia, ela rebate dizendo que Céu entende tudo à sua própria maneira.    “Ela sempre olha tudo com muita curiosidade e eu sempre tento fazer parecer mais divertido e interessante para ela também. Acho ótimo que sejam programas divertidos pra nós duas. Apesar de novinha, ela compreende tudo, mas não da forma como a gente supõe. Só não precisamos achar que eles são bobos por isso. Criança não tem que assistir só ao que está na moda da TV. A Céu adora a Frida Kahlo”, ri, dizendo que talvez o programa favorito de Céu até agora tenha sido o show infantil da Tiê, no Festival Saci, no qual as crianças comandaram um carnaval no palco.    Folia   O Carnaval de rua de BH, inclusive, teve este ano, pela primeira vez, blocos pensados especialmente para os pequenos foliões. O “Fera Neném”, liderado pelo músico Dudu Nicácio, saiu de improviso pelas ruas do Cruzeiro e encantou pais e filhos com cantigas de roda e cirandas. “A criança sofre bombardeio da indústria igual ao adulto. A cultura tem que ser um respiro e não pode entrar nessa lógica. A gente tem que valorizar os movimentos culturais autênticos e chamar pro encontro, pra brincadeira, sempre que possível”, opina o músico e pai da Joana, de um ano e sete meses.    Em comum com Cristiane leite e Dudu Nicácio, a mãe de Cora, Gabriela Garcia, 26, tem a gratidão ao FIT 2014 pelo “Concerto para Bebês”, do grupo português Musicalmente. Os três não pouparam adjetivos ao espetáculo que, focado nos menores de 3 anos, dava a eles plena liberdade para transitar pelo palco entre os músicos.    “Fiquei encantada, foi lindo e muito legal porque eu não tenho facilidade de encontrar programação pra Cora. Quase tudo é sempre para crianças a partir de 6 anos. Eu não sabia que a Cora, com 8 meses, interagiria com a música como ela fez, indo atrás dos músicos” conta Gabriela, ao que Dudu acrescenta nunca ter visto “um negócio tão bonito pra criança. Foi marcante. Até eu fiquei emocionado”.   Pelo Mundo   Espanha Anualmente, o festival Sónar, famoso pela música de vanguarda, promove uma edição Kids. Na cidade litorânea de El Port de la Selva, na Catalunha, o evento, gratuito, convida pais e filhos a curtirem um final de semana de muita música à beira da praia.    Estados Unidos O Instituto de Arte de Chicago tem uma instalação permanente de cinco bustos de diferentes períodos da arte que podem ser livremente tocadas e sentidas pelas crianças.   Inglaterra O Museu Tate Modern, de Londres, oferece um site à meninada com uma galeria de artes visuais, jogos, filmes e outras atividades. kids.tate.org.uk  

Próximos Eventinhos

Natura Musical A Praça da Liberdade abriga, neste domingo (14), o Palco Infantil. A cantora mineira Érika Machado abre a programação às 10h, seguida por apresentações do Giramundo, da balada Disco Baby e da banda Pequeno Cidadão.

FestCurtasBH A 16ª edição do Festival Internacional de Curtas de BH acontece a partir da próxima sexta (19) e conta com uma Mostra Infantil. Ao todo serão 11 filmes, exibidos ao longo de dez dias de festival . 

Festival SACI O quarto ano do Festival Sociabilização, Arte e Cultura na Infância é inteiramente dedicado à meninada. Na semana da criança, em outubro, o SACI traz, entre outras atividades, o show de 20 anos do grupo Palavra Cantada.

14º Festival Internacional de Teatro de Bonecos A criançada ainda pode conferir o italiano “Historieta de Un Abrazo” neste sábado (13), às 19h30h, na Praça Floriano Peixoto (Santa Efigênia), e domingo (14), às 16h, na Praça da Saúde (Grajaú).

Exposição “Arte à Primeira Vista: Páginas de Uma História” Com obras de Lygia Clark, Regina Silveira, Mira Schendel, Geraldo de Barros, Leonilson (foto) e Frans Krajcberg, fica no Palácio das Artes de 20/9 a 9/11.

Fórum Internacional de Dança – FID 2014 Previsto para acontecer entre os dias 29 de outubro e 9 de novembro, o FID também tem espetáculos dedicados aos pequenos - o FIDinho, que já existe desde 2008. 

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