Entre a assepsia e a sujeira

Armazém Companhia de Teatro encena a peça “O Dia em que Sam Morreu”, de hoje a domingo, no Cine Theatro Brasil

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Confronto. Após a invasão de um hospital por um jovem idealista, a situação deflagra um conflito que põe em questão valores éticos
Gabriel Monteiro
Confronto. Após a invasão de um hospital por um jovem idealista, a situação deflagra um conflito que põe em questão valores éticos

A montagem “O Dia em que Sam Morreu”, do Armazém Companhia de Teatro, é ambientada num hospital, que serve como um microcosmo capaz de refletir sobre dilemas éticos. Toda a discussão é provocada quando um jovem armado invade o espaço. “É a partir desse momento que vamos conhecer o pensamento de cada uma das personagens envolvidas no conflito. São figuras que representam diversos tipos de poder, como o médico, o juiz e o artista, por exemplo, que estão ali”, explica o diretor Paulo de Moraes.

Apresentada de hoje a domingo no Cine Theatro Brasil Vallourec, a peça chega a Belo Horizonte após ser premiada no festival de Avignon, na França, onde foi ressaltada como um dos três melhores trabalhos inéditos. Em Edimburgo, na Escócia, ela também foi destacada dentre as dramaturgias consideradas mais ousadas e inovadoras deste ano.

A boa recepção no exterior, para o diretor Paulo de Moraes, aponta como o espetáculo, ao discutir a noção de valores e as estruturas de poder, não aborda apenas questões relacionadas ao Brasil.

“Tanto em Avignon, quanto em Edimburgo, a crítica comentou a importância da temática e a qualidade das encenações. Isso para nós foi uma confirmação clara de que ‘O Dia em que Sam Morreu’ não é um trabalho que fala apenas sobre o nosso país, mas que consegue se comunicar bem com outras culturas”, diz Paulo de Moraes.

Essa característica ele relaciona ao tratamento dado ao assunto, que foi norteado pela busca de um olhar universal. O guiou no processo de escrita do texto, realizado junto com Maurício Arruda Mendonça, a obra “Macbeth”, do inglês William Shakespeare.

“Em agosto do ano passado eu estava na Escócia, participando do Festival de Edimburgo na mesma época em que aqui estavam acontecendo aquelas manifestações de rua. A peça nasce desse momento e das experiências vivenciadas por mim lá fora e por Maurício no Brasil. Embora não haja nenhuma referência direta à peça de Shakespeare, o fato de esta lidar com o poder e ser muito central no teatro escocês acabou servindo, para mim, como um ponto de partida”, observa Moraes.

Embate. A assepsia do espaço dominado pelos rigores de higienização, segundo os padrões médicos, aparece, de acordo com Moraes, em contaste com os desvios morais operados no mesmo ambiente. A sujeira, portanto, emerge do próprio comportamento dos personagens, que aos poucos se revelam.

“Nós estamos retratando uma estrutura que é invadida por alguém que exige mudanças. O desconforto percebido nessa situação pode ser comparado ao mesmo existente na sociedade quando alguém surge com alguma demanda”, observa.

“Há um mal-estar em torno das relações de poder que, ao meu ver, precisa ser discutido. É possível, por exemplo, nos mantermos íntegros num cenário de crescente relativização entre o que é certo e o que é errado? Existiria hoje espaço para alguém ser idealista?”, indaga ele.

Não à toa, quem entra no hospital metendo o pé na porta é um jovem. Ele é, entre todos os outros, aquele que mais acredita na possibilidade de mobilizar outros arranjos, o que provoca reação de quem ele encontra.

“Ao longo do tempo, aquele conflito vai trazendo para o centro da peça a manifestação de diferentes opiniões. O trabalho se nutre justamente disso, pois ele trata, em resumo, das possibilidades de diferentes pontos de vista. Como, apesar dessas visões, aquelas pessoas vão conviver num momento de clausura é o maior desafio”, conclui o diretor.

Agenda

O quê. Armazém Companhia de Teatro estreia “O Dia em que Sam Morreu”

Quando. Hoje e amanhã, às 21h; dom., às 19h

Onde. Cine Theatro Brasil Vallourec (av. Amazonas, 315, centro)

Quanto. R$ 40 e R$ 20 (meia)

Saiba mais

“O Dia em que Sam Morreu” fez sua estreia nacional no Festival de Curitiba, que aconteceu entre março e abril. Depois, a peça cumpriu temporada de três meses do Rio e foi levada aos festivais de Avignon, na França, e Edimburgo, na Escócia, antes de ser apresentada pela primeira vez em Belo Horizonte.

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