Bem vinda ao pesadelo do real

Filme estrelado por Marion Cotillard concorreu à Palma de Ouro em Cannes

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Integridade. Atuando em duas línguas estrangeiras, Marion Cotillard se recusa a fazer de Ewa uma vítima
Anne Joyce
Integridade. Atuando em duas línguas estrangeiras, Marion Cotillard se recusa a fazer de Ewa uma vítima

“Era Uma Vez em Nova York” sintetiza a história que vai contar nos seus cinco minutos iniciais. A primeira imagem do filme é um plano da Estátua da Liberdade, ficando cada vez mais distante por meio de um zoom que se afasta dela. Logo em seguida, ele corta para duas irmãs polonesas à espera na fila para entrar nos EUA, que veem seu sonho dilacerado quando uma delas é diagnosticada com tuberculose, e a imigração decide deportar a outra por ter se prostituído no navio que as trouxe.

O longa dirigido por James Gray, que estreia hoje na capital, é isso: a história de um sonho, a estátua-promessa do “american dream”, atropelado pelo pesadelo da realidade da Nova York da década de 20, encarnado por Bruno (Joaquin Phoenix). Ele é o cafetão que resgata Ewa (Marion Cotillard) da deportação e a convence a trabalhar para ele, na esperança de juntar dinheiro para o tratamento e o visto da irmã.

Acostumado ao realismo seco de produções como o ótimo “Amantes”, Gray se aventura pela primeira vez pelo melodrama, em que os eventos acontecem mais em função da necessidade do roteiro do que da lógica. “Era Uma Vez em Nova York” é daqueles filmes em que um personagem escuta a confissão do outro ao padre, ou um crime é testemunhado por uma mulher bisbilhotando pela fresta da porta.

Na ambientação da direção de arte, na monocromia da fotografia sépia e no tom “a vida é uma eterna desgraça” da encenação, Ewa é claramente uma órfã da tempestade ou um lírio partido dos dramalhões da época em que a história se passa, dirigidos pelo pioneiro D. W. Griffith.

E esse mundo de coincidências antipaulocoelhianas, em que todo o universo conspira para desgraçá-la, só funciona graças a Marion Cotillard. O melodrama é um gênero de personagens esquemáticos, sujeitos às intempéries da trama. Mas nos muitos silêncios de Ewa, o rosto da atriz nunca permite que o espectador reduza a protagonista a uma vítima. Ela alterna entre a heroína, a sobrevivente, a donzela e a meretriz – isso tudo enquanto atua numa segunda (o inglês) e terceira (o polonês) língua.

O mesmo pode ser dito de Phoenix. A imprevisibilidade típica de suas performances impede que Bruno se torne o vilão crápula do gênero, por mais deploráveis que suas ações sejam, e lhe empresta uma complexidade que faz com que o público sinta pena do amor que o personagem não sabe expressar por Ewa.

Exagero. O ator, porém, é prejudicado pela pior parte do roteiro, na sua relação com o primo Orlando (Jeremy Renner). O ciúme que ele sente do mágico por quem Ewa se afeiçoa se manifesta de uma forma exagerada mesmo para os padrões do melodrama, apontando para um passado que o roteiro nunca solidifica. E por mais que Gray brinque com as cenas dos dois, referenciando o vaudeville do período, seus desdobramentos nunca convencem totalmente.

Renner, por sinal, tem a tarefa mais inglória do longa, vivendo o mágico que tenta fazer a protagonista voltar a acreditar em... mágica. Ele é o sonho para a realidade de Bruno, e a obviedade se estende à flor que ele dá a Ewa, cujo ressecamento marca a entrega dela à prostituição.

A falta de sutileza escancara a maior falha do longa. Ele é um exercício de estilo que nunca chega a ser um grande filme. O que só é piorado pela tradução nacional e pela trilha de Christopher Spelman, que referenciam “Era uma Vez na América” – com o qual o longa de Gray divide seu universo. A comparação é injusta não só porque a obra de Sergio Leone é muito melhor, mas também um dos grandes clássicos do cinema. Tirado dessa sombra, “Era uma Vez em Nova York” é um bom filme. Um estudo interessante, feito por um dos grandes formalistas do cinema norte-americano atual, sobre o american dream, com a irmã de Ewa servindo como uma metáfora da alma da qual a protagonista deve decidir se vai ou não abrir mão para abraçar a vida na América.

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