O anjo que mora em meu carro

iG Minas Gerais |

FERNANDO FIUZA
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Outro dia, um homem acabou comigo. Pudera! Fiz a maior barbeiragem do planeta. À frente do meu carro, tapando minha visão e o semáforo, diga-se de passagem, um caminhão do tamanho de um edifício. O tráfego era intenso, e o ritmo, acelerado. E eu lá, correndo atrás do “edifício”. Ao olhar distraída para o sinal à esquerda, vejo-o amarelo. Por impulso, resolvo frear. Problema: o semáforo era destinado a quem fosse fazer a conversão, e não a quem prosseguisse em linha reta, como era o meu caso e dos 200 outros carros que vinham atrás. Pronto, já viram o tamanho da encrenca. Escuto uma sequência de “nhrrreee! nhrrrrreee! nhrrrrrreeee!” Por muito pouco me safei do BUM! Eu e os 200 carros. A vergonha foi tamanha que nem quis olhar pelo retrovisor. Acelerei e saí rapidinho. E não é que o motorista de trás, taxista, injuriado com meu lapso automotivo, fez questão de me seguir por três quarteirões? Exclusivamente para me detonar? “EEEEEÊ, MULHER!!!! P.Q.P... iuuuuuuuu! #%@#*#@!!!” Por pouco não bate no carro da frente, afinal, só tinha olhos (e boca) para mim. Xingava, gesticulava, xingava de novo... E eu na minha. Com um gesto, pedia calma e desculpas. Acontece, né? Tentei explicar com um sorrisinho tímido. Que nada! Nada de desculpas. Devo ter sido a melhor terapia de sua vida, pois descarregou em mim, de uma única vez, todas suas frustrações, raivas, ódios reprimidos e por aí vai. A-DO-RO dirigir! E, modéstia à parte, muito bem (a besteira aí de cima foi uma exceção em dia de distração). Claro que nesses mais de 20 anos de estradas já passei por algumas dificuldades como capotamentos colossais, árvore caindo no capô, sofá pulando na frente do carro em pleno Anel Rodoviário, velho pelado no meio da estrada jogando pedras em meu vidro, fios de alta-tensão despencando no veículo e coisas do tipo. Costumo dizer que meu anjo da guarda deve estar exausto. Isso para não falar do desconforto de praticamente “morar” dentro do meu carro. Fazer o quê? Não tenho culpa de essas coisas acontecerem. Como diz o ditado, quem está na chuva é pra se molhar. E, cá pra nós, guiar em Belo Horizonte é viver em constante “tormenta”. Como diz o matuto: “Ô lugarzinho ruim de dirigir!” Primeiro: o povo é lerdo. Muuuito lerdo. O sinal abre e, até o sujeito se dar conta, já fechou de novo. Outra coisa, justamente os mais lerdos ADORAM andar na esquerda, empacando o trânsito, e simplesmente odeiam dar passagem. Mas, como ia dizendo, fora os transtornos externos, independentemente da minha vontade, em todos esses anos de estrada nunca causei acidentes ou batidas. Minto. No primeiro ano de casada, dando uma ré, consegui trombar dentro da própria garagem. Detalhe: no carro do meu marido – dois prejuízos de uma vez só. Pelo menos não tive que chamar a perícia. Há mais de 20 anos, uma eficientíssima caminhonete D20 (quase um caminhão) me quebra todos os galhos possíveis: remoção de material de jardim, transporte de cachorros, de material de construção, doações para bazares etc., etc. Não fica parada um minuto. Atenção: refiro-me a uma caminhonete balzaquiana, enoooorme, quase um caminhão branco, desbotado e surrado. Nada que chegue perto das atuais e bacanérrimas caminhonetes que andam por aí: caríssimas, potentíssimas e sequestráveis como as Cherokees e as famosas Land Rovers, cuja existência só vim a saber depois de um tal Silvinho receber uma de presente. Nada parecido, mas também nada que deixe a desejar. Não sei se devido ao meu inconsciente complexo de baixinha adoro dirigi-la. Estar lá no alto é muito bom! Só tem um porém: enquanto estou no volante, dirigindo aquela coisa enorme e desproporcional ao meu tamanho, acabo virando “atração”. Percebo claramente os risinhos e o espanto, principalmente dos motoristas ao lado. Sempre eles. Os homens. Outro dia fiz besteira (minha listinha só vai aumentando, né?). Distraidíssima, com o carro debaixo do lava-jato – aquela coisa cheia de espuma, água e esfregões –, senti calor e resolvi abrir o vidro. Nunca ri tanto com uma desgraça – eu e os dois frentistas que presenciaram a cena. Até hoje, quando vou abastecer, vejo os dois me olhando. E rindo, naturalmente. Pior mesmo foi o que aconteceu com uma amiga. Incomodada com o motorista à sua frente, buzina. E o sujeito, incomodado com sua buzina, grita: “Passa por cima!” E ela, seguindo ao pé da letra a sugestão, passou. Não por cima, mas quase. Por pouco não morre estrangulada, e sua história, transcorrida no caótico trânsito de BH, vai parar na delegacia. Culpados? Os homens, claro! Sempre os homens. No dia 14, domingo, tem Livro de Graça na Praça, com distribuição de 20 mil exemplares de duas obras, o livro de contos “Mulheres” e o infantil “É Cor de Luar”, além da presença de escritores, banda, rua de lazer etc., etc. Eu e vários autores estaremos lá para uma manhã de autógrafos. Aguardamos por vocês!!! Local: Praça Duque de Caxias (Praça de Santa Tereza), das 9h às 13h.

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